A estante virou oratório das minhas crenças. Ronald JunqueiroO Francisco veio para o apartamento há uns dez anos. A imagem nem não tem valor no mercado das artes, não é peça cobiçada por antiquários ou colecionadores de raridades. Estava numa lojinha de artigos religiosos misturada a imagens de budas, anjinhos, mandalas e até baralho cigano. Venda de miudezas religiosas e místicas, na verdade. A intenção era embrulhar o santo para presentear a uma pessoa que ouvira dizer que todo mundo deveria ter um santo em casa. Um santo da devoção. Se não fosse este o caso, que ela escolhesse o que lhe fosse mais simpático.
Quem tem seus santos de devoção sabe o que significa pedir e orar para eles. E as imagens ganham seus cantinhos especiais, com direito a velas sete dias e sete noites e outras variações. Há quem siga à risca “tratar o santo à vela de libra” como diziam os mais velhos.
O Francisco foi ficando em casa, passou Natal e Ano Novo. A embalagem de presente dentro do armário e ele sem destino. A pessoa a quem ele se destinava havia adotado uma santa Rita, a dos impossíveis, capaz de revolucionar vidas e operar milagres de quem deles duvidasse. Eleger o santo de devoção não é tarefa fácil, por isso muita gente segue a tradição familiar. A fé no santo, com todo respeito, se parece como amor ao time de futebol, a torcida passa de pai para filhos e filhas. Ou de mãe, que também tem suas preferências, não necessariamente a seleção brasileira.
Desfiz a embalagem. E agora José? O que é isso!!! O santo tem nome. E agora Francisco? Não havia uma cantoneira para acomodá-lo. Oratório que se preze é artigo de luxo em tempos de especulação imobiliária e de déficit habitacional. Mas o Francisco ficou na dele, não estava aí para perturbar quem poderia tê-lo no coração, único território onde sempre cabe mais um.
Creio que ficou feliz quando o deixei na estante, ao lado de Franz Kafka, Gore Vidal, Fernando Pessoa, Thomas Mann, Machado de Assis, romances policiais e até alguns livros classificados como literatura erótica. Não era intenção misturar alhos com bugalhos. Mas por outro lado, era uma medida preventiva, uma vez que não haveria a obrigação de acender velas e correr o risco de provocar um grande incêndio num prédio de 14 andares, com três apartamentos por andar e um monte de morador inadimplente. O Francisco sabe com é passar por altos e baixos, até mesmo por ter renunciado à riqueza.
O compromisso assumido, a partir daquele momento, era tirar sempre a poeira da estante, fazer um revezamento de escritores e dos livros da vez. O Francisco ficou lá. E foi ficando. E passaram-se os anos. Hoje dá para bater um papinho com ele sem culpa e sem precisar de analista. Reclamar de alguns transtornos sem fazer promessas mirabolantes.
Francisco é um santo! Não lhe sou devoto, desses de segui-lo em romaria, mas não há dúvidas de que São Francisco é um grande parceiro.
(Mês de Antônio, João, Pedro e Marçal. Santos das fogueiras juninas. Maior fogueira que a Amazônia? Impossível!!! Nem é preciso anunciar os números da destruição dados por institutos oficiais e organizações não governamentais, que faiscam nas manchetes com as estatísticas de plantão. Ronald Junqueiro).