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domingo, 28 de setembro de 2008

Carajás, o massacre premiado

Justiça procurada à luz de vela. Velemos os mortos. Ronald Junqueiro
Tempos de campanha repetem velhas fórmulas e abordagens na conquista dos votos: candidatos vão para a telinha, todos anjinhos de candura, juram, juram, juram que vão fazer isso e aquilo, parece refrão de samba: a vida vai melhorar. Acho que até virou trilha sonora de uma propaganda de margarina, na Alemanha.

Na verdade a gente não sabe se eles enganam os eleitores, ou enganam a si próprios ou acham que não enganam mas como a palavra de ordem é enganar, acham que se enganam se pensarem que não enganam o leitor e como diz a maravilhosa Rita Lee, “um dia depois, tudo vira bosta!”

Votar por obrigação é uma coisa muito escrota, palavra que pode expressar em baixo calão todo esse blá blá blá democrático_demagógico de mudar o país.

Ana Júlia Carepa, governadora do Pará, candidata do PT, à época da campanha, trazia na ponta da língua, como cartilha bem decorada, toda a indignação contra o massacre de Carajás, que resultou na morte de 11 sem-terra na famosa curva do S. O ex-governador Almir Gabriel, que também era candidato nas últimas eleições para o governo do estado, tentando manter a fatia mais generosa do queijo para o PSDB, partido que estava no comando do estado há 12 anos, teve que engolir a língua na falta de um gato de plantão. O massacre marcou o governo do Almir.

Não dá para não ficar indignado com a violência da Polícia Militar em qualquer situação. A polícia que é paga para ordenar, usa bala e cassetete e bate pra valer como desvairados batem nos mais fracos e desarmados. Isso é polícia?

O caso rodou o mundo, conclamou todas as instituições nacionais e internacionais de direitos humanos para manifestar-se contra a violência institucional, fardada, contra as atrocidades do autoritarismo, contra a falta de proteção dos cidadãos. E, no final, happy end.

Os comandantes à época do massacre, coronel Mário Pantoja e major José Maria Pereira de Oliveira, estão em liberdade. A governadora assinou lei concedendo pensões especiais para 22 dos 69 mutilados no massacre.

Mas faltavam comensais no banquete de Babete. Isso mesmo, na mesa havia cerca 80 cadeiras vazias esperando seus convidados. E claro, a anfitriã tratou de convidá-los:

A governadora Ana Júlia Carepa promoveu a cabo mais de 80 soldados que participaram do massacre.

Pergunta: como passar uma borracha rápida na memória da gente? O massacre serviu de mote na campanha da governadora que vociferava contra a impunidade do governo anterior. E agora José? O massacre aconteceu pelos idos de 1996, parece tão loooooooonge...

É, literalmente, arquivo morto. Tão mortinho da Silva que a governadora caprichou na tinta para premiar o que ela tanto condenou.

O poder se alimenta e vive de umas relações tão esquisitas! Parece coprofagia, né?