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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Amazônia. Apagar o fogo, acender a velinha

Exemplo de resistência, desafio ao tempo. Ronald Junqueiro
Parece dia de festa, mas não é. Na avenida onde fica o prédio onde moro estudantes desfilam pelo dia da Raça. Uma das escolas vem com a banda em silêncio e os alunos usam luto pelo assassinato do colega por outro colega, em frente ao colégio.

Os jornais circulam carregados de anúncios institucionais pelo dia da Amazônia. O governo anuncia que vai começar o plantio de um bilhão de árvores até 2011.

Os Ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura querem colocar em prática o plantio de dendê, uma cultura exótica para a região.

O Partido dos Trabalhadores condena ações recentes do ministro Carlos Minc com a possibilidade de recuperação de áreas degradadas com espécies exóticas e não com plantas nativas. Mas é bom assinalar, como o Brasil não é só Amazônia, que o PT condena também e a concessão da licença ambiental prévia para a Usina Nuclear Angra 3.

O PT critica ainda a lei 11.763, assinada em agosto pelo presidente Luiz Ignácio Lula da Silva, que aumentou de 500 para 1.500 hectares o limite para regularização fundiária na Amazônia sem licitação.

O Sistema de Alerta ao Desmatamento do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia, 276 km2 de floresta foram derrubados ou queimados em julho deste ano. Há um ano, a região perdeu 961 km2. Caiu o desmatamento.

Como diz ditado “onde há fumaça há fogo”, Lula lapidou a seguinte frase quando questionado na terça-feira passada sobre o projeto que proíbe o fumo em locais fechados:

“Eu defendo, na verdade, o uso do fumo em qualquer lugar. Só fuma quem é viciado.”

E Lula nem aí. Segundo repórteres que participavam da coletiva, ele fumava sua cigarrilha na maior, contrariando a legislação que só permite o fumacê em fumódromo.

Tudo isso seria prato cheio para Sérgio Porto, o genial Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o País, ou uma nova versão para o samba do crioulo doido.

Frase do Stanislaw Ponte Preta

"No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer."

Resta-nos desfilar pela Avenida Brasil.

Uma boa leitura sobre o dia da Amazônia: Blog da Amazônia do Altino Machado

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Meu reino por um quintal

Paraiso das picotas. Quintal do seu Vitor, hora da sesta. Benfica
Ronald Junqueiro
Ah, os quintais! Aos poucos são devorados pelas metrópoles. Com eles desaparecem os pomares, o cantinho da horta caseira, das ervas medicinais onde crescia aquela plantinha para acalmar o coração, o capim marinho para fazer chá do convalescente. Desaparecem os conhecimentos das avós, das tias rezadeiras que tiravam mau-olhado benzendo a criança com um pequeno galho de arruda e balbuciando orações que de tão balbuciadas soavam a um resmungo incompreensível. Sem exagero, quase um latim ensinado na pior da pior das escolas públicas.

Os quintais davam a quem os possuía todo tipo de felicidade. O sentido de posse tem duas mãos ou enchem as mãos, sabe-se lá o que está valendo, pois os quintais nos possuíam também quando plantávamos uma muda que nos devolvia botões, folhagem, ramos e as flores donas de si por tanta beleza. Era um toma lá da cá sem restrição ou preconceito.

Ali estava uma criação que certamente alegraria a arca de Noé. Um punhado de milho e lá se juntavam ao banquete os patos, galinhas ainda solteiras ou poedeira com uma ninhada de pintinhos amarelinhos que mais pareciam brinquedos vivos fugidos da vitrine de uma loja. O bater de asas, a imponência preguiçosa dos patos, os galos grandes, os garnisés, os carijós. Os perus e peruas, os autênticos, diga-se de passagem. Sem retoques, botoxes ou mau gosto. E as marrequinhas e codornas.

A elegância discreta das meninas ficava por conta das picotas, sempre em grupos, com um cinza cheio de pintinhas brancas, um blazer fashion de penas. Um desfile sem retoques, digno das galinhas d´angola.

E havia as árvores, os passarinhos, as sombras, o ventinho, todos os sons de uma orquestra que aos poucos vai saindo de cena. Os maestros logo serão uma espécie em extinção. Nós, a platéia, não saberemos mais o que aplaudir, não teremos mais o que aplaudir, não teremos mais quintais. A platéia, um dia, também estará na lista das espécies ameaçadas de extinção. Que será despejada sumariamente dessas terras como já foram o curupira, os sacis, a matita perera, a mãe do mato, o caapora e as iaras dos igarapés. Sem tetos, sem florestas e sem rios.

Vão-se os anéis e ficam os dedos e as mãos. Ou não. Essa pode ser a medida da ambição e da insensibilidade, da ganância e da riqueza, moedas efêmeras que não valerão um dólar falso para comprar o que não existe mais: vida.

Poderemos construir quintais? Ou seremos apenas fotografias analógicas e digitais, uma fita de cinema, um meio-ambiente virtual lançado num satélite de náufragos perdidos no espaço?

(Dia Mundial do Meio Ambiente. Pará, campeão das queimadas. Florestas viram carvão. O paraíso que tantos falam é ficção. Nada mais do que ficção contada em exuberantes roteiros turísticos.
Que nos valha Santa Maria de Belém do Grão Pará. Ronald Junqueiro)