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terça-feira, 22 de junho de 2010

...É que Narciso acha feio o que não é espelho ou poço ou lâmina d´água ou o tampo na mesa polida...

... ou o que pode sugerir seu reflexo. Ronald Junqueiro

Narciso


José Régio (in “Biografia”)

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia:

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho!


José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Todos nós temos alma de Walt Whitman. Estamos vagando sem saber quando daremos o último passo. Espalhamos partículas de nós pelo caminho.

31 de maio de 1819 / 26 de março de 1892

Poetas de amanhã
Walt Whitman
(fragmento)

Eu sou um homem que, vagando
A esmo, sem de todo parar,
Casualmente passa a vista por vocês
E logo desvia o rosto,
Deixando assim por conta de vocês
Conceituá-lo e aprová-lo,
A esperar de vocês
As coisas mais importantes.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Para viciados em poesia, fingimentos e dores, para os que giram como girassóis e para os que se amam como pessoa e seus múltiplos


Meu desassossego adormece e acorda comigo. Ronald Junqueiro

Uma pessoa a transbordar pessoas, assim é Fernando, que se deságua em mares de poesia, que navega o mundo da palavra que em si apresenta-se como universo para todas as línguas e sentimentos. Em Pessoa me acorrento e me liberto. Em cada lugar de mim há um lugar que ele ocupa, na tristeza do cotidiano, no detalhe da alegria. Não lhe tenho a obra de cor e jamais queria tê-la. Vago em seus livros como errante girassol e não quero estradas em linha reta. Tenho saudade e assalto uma, duas ou mais páginas e por aí fico, rondando cada verso, rodando no mesmo eixo e assim deixo-me feliz como um demente demonstra ser, sem dar-se aos que estão em volta.

Desejo aos que por aqui passam 2010 de idas e vindas e de atalhos em cada caminho por onde passeie a felicidade em seus mil e um disfarces como o poeta que finge, mas sabe a dor e a alegria de ser o que é.

Abraços em todos,

Ronald

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"Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.


Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também".

Fernando Pessoa - Bernardo Soares



sexta-feira, 8 de agosto de 2008

0ito do oito de dois mil e oito

Que te direi, se me interrogas?
As nuvens falam?
Não. As nuvens tocam-se, passam, desmancham-se.
Às vezes, pensa-se que demoram, parece que estão paradas...
Confundiram-se.
E até se julga que dentro delas andam estrelas e planetas.
Oh, aparência...Pode talvez andar um tonto pássaro perdido.
Voz sem pouso, no tempo surdo.

(Fragmento do poema “Contemplação”, de Cecília Meirelles)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Falaêêêê, Pata-de-Vaca!

A indignação de um pode servir de exemplo à indignação coletiva. A atriz Arlete Salles foi à delegacia de polícia da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, registrar queixa contra um mau vizinho que cortou os galhos de uma árvore que ela plantou há dois anos em frente à sua casa.

A gente pensa que briga de vizinho, dessas briguinhas ditas corriqueiras, são coisas do século passado. Ledo engano. O certo é que a Arlete tem suas razões para defender o que cultivou.

Ela diz que além de ter plantado a árvore na calçada, acompanhou o crescimento dela, gastou dinheiro, investiu no seu crescimento e o mau vizinho nem aí. “Ele me desrespeitou, além de me atingir financeiramente porque gastei dinheiro com essa árvore", reclama a atriz. A história é cheia de detalhes, envolve queixa criminal, a famosa frase usada para a falta de diálogo “fale com meu advogado!”. Está nos jornais do dia. O atentado contra a bela “Pata-de-Vaca”, em pleno ciclo da floração, virou caso de polícia.

Proponho a indicação da grande atriz Arlete Salles para o lugar do ministro Carlos Minc, que adora holofotes, ou para secretaria de Meio Ambiente do Pará, onde ninguém consegue frear o holocausto ambiental. Ora, pois! Ponderariam os patrícios. Ora, pois, o cacete a quatro. Precisamos de gente que brigue por uma e por milhões de árvores.

(O Pará registrou o desmatamento de 499 quilômetros quadrados, em junho, contra os 262 quilômetros quadrados observados em maio, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Na Amazônia Legal, o desmatamento, em junho, foi de 870 quilômetros quadrados, 20% menor que os números registrados em maio. O Pará conseguiu se superar e superar a própria região nessa escalada de destruição da floresta. )


Para tornar o dia menos sombrio, uso o argumento de que o poeta é do povo e que sua poesia deve ser lida por todos. Peço desculpas ao poeta por seqüestrar sua poesia do livro e deixá-la aqui, assim, como uma folha solta entre milhões de folhas mortas. Precisamos da poesia para tornar o mundo melhor e florescer. Todo dia é dia de árvore, desde 1957, quando foi publicado o texto.

Fala, amendoeira
Carlos Drummond de Andrade

Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios eléctricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incômodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exactamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.

sábado, 28 de junho de 2008

Pessoa à luz da tarde

Na cama com Bernardo, Fernando e Vicente. Três Pessoas. Ronald Junqueiro

Onde há uma brecha, há um caminho para a luz. Olho o fim da tarde e a tarde deixa pistas sobre a cama, acaricia os livros do poeta e me dá uma lição de vida, mais uma. Que venham a noite e outro dia. Deixei o hoje, o instante revelado. Um átimo, milésimos de segundo que podem durar o tempo para mais adiante de mim. Nessa viagem, pinço um trecho de Fernando Pessoa, uma brecha para a luz. Uma colagem poética.

"Todos aqueles acasos infelizes da nossa vida, em que fomos, ou ridículos, ou reles, ou atrasados, consideremo-los, à luz da nossa serenidade íntima, como incômodos de viagem. Neste mundo, viajantes, volentes ou involentes entre nada e nada ou entre tudo e tudo, somos somente passageiros, que não devem dar demasiado vulto aos percalços do percurso, às contundências da trajetória. Consolo-me com isto, não sei se porque me consolo se porque há nisto que me console. Mas a consolação fictícia torna-se-me verdade se não penso nela". (...)
(Livro do Desassossego – vol. II, Fernando Pessoa/Bernardo Soares)