terça-feira, 1 de setembro de 2009
Cena brasiliense: a santa sesta sobre a grama
Nessa gestão de cama, mesa e banho do Partido dos Trabalhadores e quejandos, que a grama sirva para uma pausa e justo descanso do trabalhador que sua de verdade, numa Brasília calorenta desde o final de semana.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
E a "Máscara de Jason" vai para!...
Reprodução feita a partir de cenas do filme. Ronald JunqueiroDá uma tristeza ver o Brasil do jeito que está. Violência, mentira, golpes, políticos de baixo calão, enganação geral, cinismo pela hora da morte. Nada disso é novo e nem podemos ser inocentes para acreditar que tudo começou agora, na era Lula.
Mas não há como fechar os olhos para tanto descalabro.
Tudo é ambição, guerra pelo poder, manutenção do poder e o povo que lamba o chão.
Quem mente afinal, Lina ou Dilma? Lula?
Sarney? Palocci? Mercadante? Aquele que faz do Senado o quartel de Abrantes...E que diz que não amarelou, que o apelo do PT para o seu “dia do Fico” era maior - PT que mais parece, hoje, Partido da Traição.
Nesse circo de horrores, vamos criar um Prêmio Nacional made in USA? Mas sem ameaçar a natureza. No lugar da Cara de Pau lançamos como prêmio para os piores cidadão do Brasil a máscara de Jason, no prêmio “Monstros do Brasil”.
sábado, 15 de agosto de 2009
Bob Dylan, um cidadão comum, simples mortal
Uma janela discreta. Ronald Junqueiro Soterramento leva ao esquecimento. O tempo é areia. Sob o tempo, cobrem-se vivos e mortos. Todos os dias. A falta de memória não está perdida lá no fim do túnel. Ela está na manhã de hoje, há algumas horas atrás. Não é coisa de desmemoriados apenas, mas de ignorantes, de um bando atropelado por essa velocidade temporal que nos faz perder o bonde da história ou o trem bala. Só quem viveu Woodstock ou sua era, guarda essa emoção que chega até aqui, quarenta anos depois. Montam colagens de velhos ídolos, muitos deles já mortos.
Para a moçada de hoje, isso não tem o mesmo significado. Lenda é um equívoco. Ora vejam só. Leio na Internet:
“A lenda do rock Bob Dylan foi tratada como um completo desconhecido pela polícia em uma comunidade na costa de Nova Jersey, quando um morador denunciou que alguém estava vagando pela vizinhança”.
Recorte do dia. Dylan foi parado por policiais que não o reconheceram e exigiram sua documentação, numa comunidade na costa de Nova Jersey. Os guardinhas tinham cerca de 20 anos. Claro que o Dylan de quarenta ou vinte anos atrás não é o mesmo hoje, não está no noticiário como as novas bandas e ídolos do rock e os guardinhas não têm obrigação de saber que estavam abordando uma lenda. Fizeram o que tinham de fazer mesmo que o roqueiro dissesse que estava em turnê.
Um morador desconfiado e policiais que estão mais para a geração dos filhos dos filhos da paz e do amor acabaram com o passeio de Dylan. O artista disse aos policiais que estava apenas caminhando e observando as casas para passar o tempo, antes do show de noite. Era apenas um transeunte, queria ser um simples mortal como tantos outros anônimos flanando pela cidade. Era um simples mortal.
Há dias logos e há dias curtos. E nesse passar podemos ser interceptados e impedidos de olhar a paisagem, a arquitetura das cidades, o movimentos dos anônimos. Somos todos suspeitos por estarmos na rua. Mas isso não impede a marcha nem a caravana. Nem os cães ladrando.
Outras coisas que me chamaram a atenção no dia:
- Shahrukh Khan, um dos mais famosos atores indianos, foi detido por duas horas no aeroporto de Newark, perto de Nova York, neste sábado. Khan teria sido libertado após a intervenção de um diplomata indiano nos Estados Unidos.
O ator, uma das maiores celebridades de Bolllywood (a indústria indiana do cinema), acusa as autoridades de imigração americanas de tê-lo interrogado por causa de seu sobrenome muçulmano.
O ator já apareceu em mais de 70 filmes de Bollywood e ganhou inúmeros prêmios por suas atuações. No ano passado, a revista americana Newsweek listou seu nome entre as 50 pessoas mais influentes do mundo. (BBC)
- Cerca de 200 pessoas fizeram à tarde, no Rio de Janeiro, um protesto contra a permanência de José Sarney (PMDB-AP) na presidência do Senado. Eles percorreram a orla da Praia de Copacabana do Posto 6 até o Hotel Copacabana Palace, exibindo cartazes com inscrições como "Fora Sarney", "Lugar de corrupto é na cadeia" e "Pena de morte para os ladrões". Muitos usaram nariz de palhaço, máscara para evitar gripe suína com os dizeres "Fora Sarney" e carregaram caixas de pizza. O grupo fez ainda um minuto de silêncio e cantou duas vezes o Hino Nacional durante a manifestação, que teve três horas de duração. (Agência Estado)
- O engenheiro Januário Reina, secretário de Administração da Prefeitura de Sorocaba, foi preso na tarde deste sábado por policiais da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio do Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic). Ele foi flagrado com três adolescentes dentro de um motel em Itu, por volta das 15h30. (Agência Estado)
- A exposição Joconde - Da Monna Lisa alla Gioconda Nuda que é dedicada a trabalhos inspirados no quadro Mona Lisa. em cartaz no Museu Ideale Leonardo Da Vinci, na região da Toscana, até 30 de setembro. A mostra é dividida em duas partes: uma com obras histórica e outra com peças de arte contemporânea. Algumas destas obras trazem retratos da Mona Lisa nua.
Claro está que nenhuma delas bateria dona Norminha, personagem da talentosa (e gostosa!) paraense Dira Paes, na capa Playboy, se a atriz atendendesse aos apelos dom editor da revista.
Tem mais espetáculo, mas por agora vou dar uma espiada pela janela.
sábado, 8 de agosto de 2009
Fato do dia - ou da noite. Porrada e ficção


Imagens de Letícia Sabatella, grande atriz brasileira. Ronald JunqueiroIvone teve a surra merecida. Letícia Sabatella está impecável como vilã e na sexta-feira, contracenando com a fantástica Cristiane Torloni, deu um show de interpretação. Acho que a personagem deveria ser eleita a musa do Senado. Ao menos na ficção, a personagem mostra, sem mentir, o caráter que tem.
Nossos senadores precisam cair na real. Plenário não é palco. Mas se assim fosse e ali eles estivessem apresentando para o País uma mega produção, a ficção poderia virar realidade e todos estariam com as caras inchadas de porrada e vermelhas com sangue de verdade e não sangue cenográfico.
Senhores senadores, sejam apenas senadores, nada mais do que isso. E parem de roubar a cena da Ivone!
Brasil, o império das cagadas
A gente sempre está com muita pressa. Todos os dias nós percorremos trajetos que nos levam daqui para outro ponto como o coração e a mente funcionando no piloto automático. Até quando essa rota é interrompida temporariamente – às vezes a interrupção é fatal para muitos.
As ruas colecionam crônicas, a maioria povoada por anônimos, que podem sair na primeira página e ser manchete em outros cadernos do jornal. É a crônica policial que mais se multiplica. A primeira semana de agosto veio como onda forte, daquelas que arrastam tudo o está a sua frente.
No cruzamento das ruas há vida e morte. A tragédia do dia a dia é tão comum como dar nó no cadarço para firmar os sapatos. Isso não evita o passo em falso.
Atenção, ao dobrar uma esquina. Atenção, tudo é perigoso. Bem antes da Tropicália.
A foto revela o perigo iminente, constante, quase inevitável. Um dia antes, um homem foi atropelado e teve fraturas múltiplas neste trecho da Avenida Pedro Miranda com a travessa Mauriti. Ele calculou mal a travessia da rua fora da faixa de segurança e foi colhido por um carro de passeio. Para sorte do pedestre o motorista não dirigia em alta velocidade.
No dia seguinte, parei no mesmo cruzamento, pois havia uma batida violenta e a perícia do Departamento de Trânsito atrapalhava o percurso de quem ia do lado direito da pista central, que é de mão dupla.
Na foto, do lado esquerdo da pista central por onde o tráfego continuava, via-se outro retrato do quanto a cidade é um caos. O semáforo muda para o verde, um ciclista e um carroceiro fazem um desvio para seguir adiante. Mas lá no fundo, no mesmo lado da pista, um cadeirante disputa espaço no trânsito. Cadeira de rodas virou veículo. Que loucura! A cidade não foi preparada para os cidadãos. Isso é uma merda quando a gente briga todos os dias para ter o que muitos defendem, mas que é privilégio de poucos: a cidadania.
Enquanto isso, no Senado, a baixaria corre solta. Senadores se intitulam cidadãos de primeira categoria, mas o teatro, no plenário, é uma produção das mais baratas na qualidade dos que representam seus papéis: políticos incultos, dromedários, de ínfima categoria e que arrotam serem representantes legítimos de um país que eles nem prezam.
Fora Sarney! Fora Collor! Fora Renan e toda a camarilha governistas que estão cagando e andando para urna eletrônica que deu a eles assento no Congresso Nacional. Na verdade, eles merecem um penico como troféu para depositar a merda retirada da cabeça de cada um deles, pois eles são também os responsáveis pela cagada que está emporcalhando o Brasil.
Pizza da sexta-feira: O presidente do Conselho de Ética do Senado, Paulo Duque (PMDB-RJ), arquivou as sete últimas denúncias por falta de decoro parlamentar contra o presidente da instituição, José Sarney (PMDB-AP), enviadas ao órgão por partidos e parlamentares.
sábado, 1 de agosto de 2009
Almofadas vermelhas ao sol
Hugo Chávez roda a chave da censura para fechar a boca do povo. Cancelou a licença de 34 emissoras de rádio e ameaça tirar do ar outras 200, em meio a uma campanha para acabar com o que chama de "abuso" da liberdade de expressão.
Chávez não passa de um presidente bundão. Os venezuelanos deveriam sentá-lo numa chapa quente. O poder não pode intimidar o povo.
Cá no Brasil, a família Sarney precisa entender que censura não vai funcionar para esconder o caldo da lavagem de roupa suja no Senado. A Justiça proibiu o jornal O Estado de S. Paulo de publicar reportagens sobre a investigação da Polícia Federal contra Fernando Sarney, filhinho de papai. Medidas escrotas como a que foi adotada pelo desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, não limparão a merda feita pelo senador José Sarney (PMDB-AP) - pai do Fernandinho - mergulhado em denúncias de nepotismo, envolvimento em atos secretos e desvio de verbas da Petrobras.
Sarney não aprendeu nenhuma lição de democracia.
O Lula, presidente gogó de ouro, malandramente, deixou de defender o senador-escritor maranhense “Marimbondo José Sarney de fogo”. Aliás, falta ao nosso presidente doses homeopáticas de simancol. Como o poder lhe subiu à cabeça! Mesmo assim, vermelho que nem ele, podemos dizer que Lula amarelou.
Vejamos o que mais o sábado nos trouxe:
Meninas baleadas num morro do Rio de Janeiro e assassinatos em Belém do Pará.
Milhares de poloneses celebraram os 65 anos da revolta de Varsóvia contra a ocupação alemã. As comemorações contaram com a presença de inúmeros veteranos de guerra. A insurreição de 1944 foi uma tentativa de instaurar o poder em Varsóvia antes da chegada das tropas soviéticas. Os festejos da revolta só foram oficializados a partir de 1989, o ano da queda do regime comunista. Nesse episódio da Segunda Guerra Mundial morreram 18.000 combatentes poloneses, 17.000 soldados nazistas e 200.000 civis.
A vida vale muito. Não pode ser encarada como o que nos resta.
Em Amsterdã pela primeira vez, policiais e soldados do exército holandês juntaram-se aos desfiles da parada Gay usando as fardas. Durante o evento foi celebrado. A Holanda é um país pioneiro nas questões de defesa dos direitos homossexuais. Em 2001 tornou-se na primeira nação do mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Já em Portugal, o Tribunal Constitucional rejeitou o direito ao casamento entre duas mulheres. Teresa e Helena vão recorrer da sentença junto ao tribunal europeu dos direitos humanos.
Filipinos emocionados com a morte de Corazon Aquino, a mulher que derrubou a ditadura de Ferdinando Marcos e de Imelda Marcos, conhecida como a mulher dos 3.000 pares de sapatos. Eles dominaram, por 21 anos, o império do nepotismo.
Cory , como era conhecida Corazon, não pode ser esquecida.
O desmatamento na rodovia Santarém-Cuiabá está fora de controle. Segundo relatório divulgado nesta sexta-feira (30) pelo Imazon (Instituto do Homem e meio Ambiente da Amazônia), a área desmatada, equivalente a 60 vezes o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, foi destruída nas margens da rodovia BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA).
Apenas três municípios paraenses, próximos a essa estrada, concentraram 95,1 km² de florestas derrubadas.
Enquanto isso, deixo as almofadas ao sol para matar os ácaros. Almofadas vermelhas ao sol
Flagrante da cidade em julho.
Avenida Pedro Miranda. Domingo, julho, 26/2009. Ronald Junqueirodomingo, 26 de julho de 2009
Das loucuras do trânsito nem santo escapa
O trânsito em Belém é caótico e violento. E incha a olhos vistos. Quem dirige tem que pedir a proteção de todos os santos, incluindo aí os padroeiros e os santos guerreiros, como São Jorge. E nem ele mesmo escapou dessa batida na traseira. Com certeza, para o Santo é muito mais fácil lutar contra o dragão do que contra motoristas malucos que, com as bênçãos da isenção do IPI, invadem as ruas da cidade e viram armas potenciais a ameaçar a vida de todo mundo.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Economia em alta e moral barata
Lula disse - há mais ou menos um mês, lá no Cazaquistão - estar preocupado com o que classifica como “política de denuncismo”.
Na verdade, isso indica que alguma coisa está fora da ordem.
O Brasil pode ir bem das pernas na economia, mas vai mal na moral.
No comando do país falta a palavra como ato de liderança e não como destempero e incontinência.
Aqui andam falando muita merda, cobras e lagartos. A turma da política, do planalto à planície, trata o ouvido do cidadão como se fosse penico, a começar pelo presidente.
Pelo jeito, a descarga está nas mãos erradas. O cidadão (claro que falo no cidadão de bem!) deve ser o dono da higienização, logo... é o dono da história. O resto é figuração.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
África em nós
A campanha fotográfica África em Nós, criada pela secretaria de Estado da cultura de São Paulo convoca toda população paulista a participar através da fotografia, no que ela vê, sente e compreende sobre a presença e a herança africana no dia a dia.sábado, 11 de julho de 2009
A inteligência anfíbia que nos falta
A aninga convive na boa, ora na terra ora no rio. Ronald JunqueiroAninga – (Montrichardia arborescens) Espécie da família das Araceae, anfíbia. Medicinal (expectorante e cicatrizante). Servem de alimento e refúgio de peixes, répteis e mamíferos A seiva contém produtos irritantes da pele que causam dermatites. Ornamental.
Fotografei apenas um detalhe, no início da tarde, sol a pino do verão que tomou conta da cidade.
A aninga verde escura banhando-se nas águas barrentas do rio Guamá. É uma visão poética. E real. E quem disse que a realidade não pode ser expressão poética? Pelo menos contemplativamente?
sábado, 4 de julho de 2009
domingo, 29 de março de 2009
Dias de chuva, dias ensolarados
domingo, 15 de março de 2009
Maria Alcina, maravilha do Brasil
Imperdível!
Se vale a indicação vá a uma loja de disco ou compre pela internet o novo disco da Maria Alcina. É isso, falo daquela que fez o Maracanãzinho vir a baixo jogando pra galera “Fio Maravilha”, de Jorge Benjor.
Que bom falar bem de Maria Alcina, essa mineira de Cataguases, de voz forte e grave e de uma genialidade que poucas cantoras brasileiras são capazes de apresentar num repertório sem apelos e apelações. Pena que as gravadoras não perceberam essa pedra preciosa que nem precisava ser lapidada.
Inovadora, de vanguarda e ousada são algumas das identidades que podemos atribuir à ela que não precisa estar nas paradas de sucesso para colocar na vitrine seu novo disco, o CD “Confete e Serpentina”, álbum com onze faixas que acaba de chegar às lojas.
A explosão provocada em 1972 pela irreverente Maria Alcina ao arrebatar o primeiro lugar do Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, foi como um cometa riscando os seus do Brasil cheio de estrelas de generais. A carreira da artista foi interrompida pela ditadura militar ao ser processada por “comportamento subversivo” e afastada das televisões, rádios e estúdios.
E taí, vivinha da silva. Mais vanguarda do que nunca neste Brasil repetitivo e monótono em que vivemos. E Maria Alcina vem em boa companhia com esse trabalho produzido por Mauricio Bussab do grupo eletrônico Bojo, com o qual ela já tivera um grande encontro em 2003, que resultou no CD “Agora”. Ela tem uma trupe de fãs incondicionais como a banda Numismata, uma das fundadoras do estilo indie-samba, Felipe Julian da banda eletrônica Axial, Tatá Aeroplano e Ronei Jorge...entre outros.
É bom saber que “Confete e serpentina” não é um disco com marchinhas de carnaval, apenas a perfeita tradução de uma artista que sobreviveu aos massacres da censura, do tédio e da pobreza da música popular brasileira e seus falsos brilhantes, e que abre alas para o que ela é como artista: os brasileiros puro sangue, de pura alegria e sem caras e bocas impostas pela mídia interessada apenas em audiência para produtos de origem duvidosa, inclusive na música.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Cultura e civilização
Inverno. Chuva. Maré cheia. Total cumplicidade com o nada a fazer. Som das ondas e da chuva que escorre pela calha e cai no pátio que dá para o imenso rio pontilhado de ilhas ao longe e navios imóveis.
Lembro uma música de Gilberto Gil. Rolam os versos na mente preguiçosa: "A cultura e a civilização, elas que se danem. Ou não"... Era voz de Gal Costa. A Tropicália passou com seu verdeamarelo exaltado, aquarela de outros tempos, hoje esmaecida e manchada pela umidade. Como qualquer espírito de época.
Mosqueiro fica a mais ou menos 70 km de Belém. A ilha não perdeu o bucolismo, mas já não tem mais a poesia de trapiche depois que construiram a ponte, ligando-a ao continente. Está sob ameaça de extinção, o verde desaparece na onda de invasões que proliferam na ilha. O olhar paradisíaco é ilusão. O futuro é a lembrança ou o fragmento.
Capturei na fotografia um átimo da realidade, a vila onde fico hospedado. Deixei a cidade num fim de semana e na sala do apartamento uma pilha de livros para limpar com uma mistura antibactericida, antiácaro, antifúngica. Dá um desânimo enooooorme, essa faxina!
Isso já dura uma semana. Pego um livro, limpo a capa, as orelhas e já fico aprisionado numa leitura ligeira, que se gruda na memória, que grita pelos personagens que estavam sufocados na estante. Capas encardidas, folhas que se vão amarelando, títulos que o tempo apaga das lombadas, histórias que atravessam os séculos - gente teimosa que saiu desse tempo que já nem nos damos conta, pois assim são os autores e suas criaturas, todos tem alma imortal ou se iludem com essa certeza que está mais em nós do que neles.
Faxina não é coisa simples como jogar poeira sob o tapete, recolher frascos vazios de shampoos e tranquilizantes para jogá-los na lixeira, restos de festa, notas de supermercado ou da farmácia...
Fui cheio de vontade para me livrar de uma pilha de jornais antigos, velhos encartes e aí deparo com uma entrevista do Daniel Cohn-Bendit, anarquista que liderou o movimento estudantil de 1968, em Paris. Ele deu uma entrevista sobre os 20 anos do movimento que se espalhou pela Europa, ao jornalista brasileiro Geneton Moraes Netto, publicada no caderno 'Idéias', do Jornal do Brasil, no dia 7 de maio de 1988. A matéria é uma viagem a um tempo que não fazia parte da minha realidade aqui na Amazônia, esse cantão esquecido lá nessas eras e ainda hoje, quando vemos que ela é apenas uma marca que está na lista das coisas em extinção.
"Ainda há causas dignas de barricada"
O título da entrevista me chama a atenção, revira meu tempo, minha memória, minhas relações. Um movimento muito íntimo e pessoal. Não sei dizer, de bate pronto, quais seriam minhas causas e palavras de ordem como se podiam ler nas pichações em Paris, em maio de 1968.
"Professores, vocês nos fazem envelhecer!"
"Corra, camarada, o velho mundo está atrás de você".
"A sociedade é uma planta carnívora!"
Mas acho que há, sim, causas dignas para erguermos barricadas. Cada um de nós pode eleger seus motivos e talvez eles se encontrem em movimentos coletivos. E aí os pares se juntam e então formam multidões capazes de alterar ordens estabelecidas por interesses escusos.
A chuva me embala, o barulhinho da maré me entorpece sem a cor ressaltada pelos dias de verão. Há um cinza pacificador. Não quero tornar meus pensamentos sérios demais. Mas sei que não vou jogar fora o encarte com a entrevista de Daniel Cohn-Bendit, hoje um deputado do parlamento europeu pelo Partido Verde da Alemanha e que tem até página na internet. Vivemos outros tempos. Preciso descobrir meus motivos para manter minhas barricadas.
"A cultura e a civilizaçao, elas que se danem... ou não... eu gosto mesmo é de comer com coentro...eu gosto mesmo é de ficar por dentro..."
Decididamente, não vou jogar Madame Bovary no conteiner de lixo, nem que Flaubert me implorasse... podem tirar o cavalinho da chuva, porque eu mesmo vou ali tomar um banho de chuva...Há coisas definitivas.







