
Elas vieram de longe. A vida é prova de resistência. Ronald JunqueiroAs orquídeas ficam num canto do improvisado jardinzinho suspenso que jamais se igualará aos jardins da Babilônia. Elas florescem o ano todo, adaptadas à vida em vasos arrumados na direção do nascente. O verão é excitante, fecundador. E as arundinas se multiplicam e se derramam em flores de vida breve. Não exigem cuidados excessivos e paranóicos de jardineiro amador. É suficiente regá-las e vitaminar a terra de vez em quando. E daí a natureza toma seu rumo sem frescura. Mas as arundinas falam, também, que as conexões com o planeta são reais e não dependem de um clique virtual para ativar um mundo que pode estar oculto nesse ciclo de vida e morte, o nosso cotidiano. Se nós, como as orquídeas, encontrarmos um solo, um cantinho de terra e liberdade abrimos caminhos para outras gerações, o que é, verdadeiramente, a essência da imortalidade. Há um tempo para todos e a vida é a maior prova de resistência. Nada acaba em cada um de nós e nem em quem periga entrar para a lista de espécies em extinção.
- Tão belas essas orquídeas! Vieram de Burma, lá do outro lado, bem distante, milhas e milhas, e nem imaginaram que viveriam numa rua aqui do bairro da Pedreira, em Santa Maria de Belém do Grão Pará, Amazônia, Brasil.
(Com a pompa e circunstância da botânica, as flores da sacada são conhecidas como arundina bambosifolia, da família orquidácea e da espécie graminifolia. Isso é o que se chama, na moral, uma verdadeira árvore genealógica. As arundinas não precisam pagar terapias de regressão. Podem ter nascido nos jardins de monges budistas de Myanmar – ex-Burma ou Birmânia – esse país tão looooooooonge, no sudeste da Ásia, que nem nos damos conta de tal existência. Aliás, em 2007, a repressão às manifestações contra o regime militar, instalado no país há 46 anos, fizeram muita vítimas, entre elas os pacíficos monges. Coisa de países abençoados por Deus, como o nosso verdeamarelo pa-tro-pi. Como desgraça pouca é bobagem, um dos poucos momentos para quebrar o isolamento internacional vivido pelo país, em maio, por um ciclone, sob medida, que deixou mais de 15 mil mortos e mais de seis milhões de desabrigados. O fluxo de turistas ambientais e da rede solidária internacional deve ter aumentado pra caramba, pois Myanmar é um dos países menos visitados por turistas no continente asiático. Guardadas as proporções, o Brasil ainda é um paraíso).