sábado, 11 de julho de 2009

A inteligência anfíbia que nos falta

A aninga convive na boa, ora na terra ora no rio. Ronald Junqueiro

Se nós vivêssemos um estado vegetativo poderíamos desenvolver outro tipo de inteligência. Parece viagem – e é, não de todo, uma viagem, sim! Passei a sexta-feira no Manjar das Garças, que gosto de chamar de Mangal das Garças. Fica em Belém do Pará, na beira do rio Guamá. Ali há um aningal que serve de exemplo da harmonia dos espaços e sua ocupação. A aninga é uma macrófita aquática. O que é? Leia logo abaixo o que catei num site.

Aninga – (Montrichardia arborescens) Espécie da família das Araceae, anfíbia. Medicinal (expectorante e cicatrizante). Servem de alimento e refúgio de peixes, répteis e mamíferos A seiva contém produtos irritantes da pele que causam dermatites. Ornamental.

Fotografei apenas um detalhe, no início da tarde, sol a pino do verão que tomou conta da cidade.

A aninga verde escura banhando-se nas águas barrentas do rio Guamá. É uma visão poética. E real. E quem disse que a realidade não pode ser expressão poética? Pelo menos contemplativamente?

sábado, 4 de julho de 2009

Aquarela na janela

Aquarela na janela. Pro dia nascer feliz. Ronald Junqueiro

Entre a luz e a sombra transitam as cores. Estamos sempre diante de uma aquarela que pode estar na moldura das nossas janelas.

domingo, 29 de março de 2009

Dias de chuva, dias ensolarados

Aqui só há duas estações: ou é inverno ou é verão. Ronald Junqueiro

Da minha janela vejo as mudanças do tempo, do vento, da vida. Um gosto de sol, às vezes de chuva. Vivemos assim, alternados, alternativas. Um lado que se oculta, outro que se expõe. Não por medo. Cada lado procura apenas a luz propícia, mesmo que seja uma breve chama a revelar ângulos, claridades, contornos, faces, linhas, lados, perfis, sombras, sutilezas.

Ninguém se mostra por inteiro. Esse é o grande lance. O melhor. E nem precisa ser esfínge. Ou ameaçar quem nos tenta desvendar. Deixa-se ou não. Nem a fome nem a sede podem ser a medida da nossa voracidade. Decifra-me ou te devoro? Pode ser o inverso: devora-me e me decifra. Podemos ser via de mão dupla. Ou beco sem saída.

Há dias de chuva e dias ensolarados.

domingo, 15 de março de 2009

Maria Alcina, maravilha do Brasil



Imperdível!

Se vale a indicação vá a uma loja de disco ou compre pela internet o novo disco da Maria Alcina. É isso, falo daquela que fez o Maracanãzinho vir a baixo jogando pra galera “Fio Maravilha”, de Jorge Benjor.

Que bom falar bem de Maria Alcina, essa mineira de Cataguases, de voz forte e grave e de uma genialidade que poucas cantoras brasileiras são capazes de apresentar num repertório sem apelos e apelações. Pena que as gravadoras não perceberam essa pedra preciosa que nem precisava ser lapidada.

Inovadora, de vanguarda e ousada são algumas das identidades que podemos atribuir à ela que não precisa estar nas paradas de sucesso para colocar na vitrine seu novo disco, o CD “Confete e Serpentina”, álbum com onze faixas que acaba de chegar às lojas.

A explosão provocada em 1972 pela irreverente Maria Alcina ao arrebatar o primeiro lugar do Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, foi como um cometa riscando os seus do Brasil cheio de estrelas de generais. A carreira da artista foi interrompida pela ditadura militar ao ser processada por “comportamento subversivo” e afastada das televisões, rádios e estúdios.

E taí, vivinha da silva. Mais vanguarda do que nunca neste Brasil repetitivo e monótono em que vivemos. E Maria Alcina vem em boa companhia com esse trabalho produzido por Mauricio Bussab do grupo eletrônico Bojo, com o qual ela já tivera um grande encontro em 2003, que resultou no CD “Agora”. Ela tem uma trupe de fãs incondicionais como a banda Numismata, uma das fundadoras do estilo indie-samba, Felipe Julian da banda eletrônica Axial, Tatá Aeroplano e Ronei Jorge...entre outros.

É bom saber que “Confete e serpentina” não é um disco com marchinhas de carnaval, apenas a perfeita tradução de uma artista que sobreviveu aos massacres da censura, do tédio e da pobreza da música popular brasileira e seus falsos brilhantes, e que abre alas para o que ela é como artista: os brasileiros puro sangue, de pura alegria e sem caras e bocas impostas pela mídia interessada apenas em audiência para produtos de origem duvidosa, inclusive na música.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Cultura e civilização

Mosqueiro. Tarde de chuva. Um tal de espreguiçar. Ronald Junqueiro

Inverno. Chuva. Maré cheia. Total cumplicidade com o nada a fazer. Som das ondas e da chuva que escorre pela calha e cai no pátio que dá para o imenso rio pontilhado de ilhas ao longe e navios imóveis.

Lembro uma música de Gilberto Gil. Rolam os versos na mente preguiçosa: "A cultura e a civilização, elas que se danem. Ou não"... Era voz de Gal Costa. A Tropicália passou com seu verdeamarelo exaltado, aquarela de outros tempos, hoje esmaecida e manchada pela umidade. Como qualquer espírito de época.

Mosqueiro fica a mais ou menos 70 km de Belém. A ilha não perdeu o bucolismo, mas já não tem mais a poesia de trapiche depois que construiram a ponte, ligando-a ao continente. Está sob ameaça de extinção, o verde desaparece na onda de invasões que proliferam na ilha. O olhar paradisíaco é ilusão. O futuro é a lembrança ou o fragmento.

Capturei na fotografia um átimo da realidade, a vila onde fico hospedado. Deixei a cidade num fim de semana e na sala do apartamento uma pilha de livros para limpar com uma mistura antibactericida, antiácaro, antifúngica. Dá um desânimo enooooorme, essa faxina!

Isso já dura uma semana. Pego um livro, limpo a capa, as orelhas e já fico aprisionado numa leitura ligeira, que se gruda na memória, que grita pelos personagens que estavam sufocados na estante. Capas encardidas, folhas que se vão amarelando, títulos que o tempo apaga das lombadas, histórias que atravessam os séculos - gente teimosa que saiu desse tempo que já nem nos damos conta, pois assim são os autores e suas criaturas, todos tem alma imortal ou se iludem com essa certeza que está mais em nós do que neles.

Faxina não é coisa simples como jogar poeira sob o tapete, recolher frascos vazios de shampoos e tranquilizantes para jogá-los na lixeira, restos de festa, notas de supermercado ou da farmácia...

Fui cheio de vontade para me livrar de uma pilha de jornais antigos, velhos encartes e aí deparo com uma entrevista do Daniel Cohn-Bendit, anarquista que liderou o movimento estudantil de 1968, em Paris. Ele deu uma entrevista sobre os 20 anos do movimento que se espalhou pela Europa, ao jornalista brasileiro Geneton Moraes Netto, publicada no caderno 'Idéias', do Jornal do Brasil, no dia 7 de maio de 1988. A matéria é uma viagem a um tempo que não fazia parte da minha realidade aqui na Amazônia, esse cantão esquecido lá nessas eras e ainda hoje, quando vemos que ela é apenas uma marca que está na lista das coisas em extinção.

"Ainda há causas dignas de barricada"

O título da entrevista me chama a atenção, revira meu tempo, minha memória, minhas relações. Um movimento muito íntimo e pessoal. Não sei dizer, de bate pronto, quais seriam minhas causas e palavras de ordem como se podiam ler nas pichações em Paris, em maio de 1968.

"Professores, vocês nos fazem envelhecer!"

"Corra, camarada, o velho mundo está atrás de você".

"A sociedade é uma planta carnívora!"

Mas acho que há, sim, causas dignas para erguermos barricadas. Cada um de nós pode eleger seus motivos e talvez eles se encontrem em movimentos coletivos. E aí os pares se juntam e então formam multidões capazes de alterar ordens estabelecidas por interesses escusos.

A chuva me embala, o barulhinho da maré me entorpece sem a cor ressaltada pelos dias de verão. Há um cinza pacificador. Não quero tornar meus pensamentos sérios demais. Mas sei que não vou jogar fora o encarte com a entrevista de Daniel Cohn-Bendit, hoje um deputado do parlamento europeu pelo Partido Verde da Alemanha e que tem até página na internet. Vivemos outros tempos. Preciso descobrir meus motivos para manter minhas barricadas.

"A cultura e a civilizaçao, elas que se danem... ou não... eu gosto mesmo é de comer com coentro...eu gosto mesmo é de ficar por dentro..."

Decididamente, não vou jogar Madame Bovary no conteiner de lixo, nem que Flaubert me implorasse... podem tirar o cavalinho da chuva, porque eu mesmo vou ali tomar um banho de chuva...Há coisas definitivas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Feliz 2009!

Espetáculo de fogos na torre da televisão. Ronald Junqueiro

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Por um mundo melhor

No meio de tanta coisa ruim, a vida continuará sendo o motivo maior de celebração, como o caso da pequena Luiza Victória

Uma história comoveu muita gente que assistiu televisão na véspera de Natal. A recém-nascida Luiza Victória, nascida há quatro meses com 430 g e 26 cm, recebeu alta da Unidade de Tratamento Intensivo de um hospital do Rio de Janeiro e voltou para os braços da mãe. Uma roupa vermelha e um gorrinho de Papai Noel, a menina, com pouco mais de dois quilos e com 46 cm é o que se pode chamar de milagre da vida. Essa época nos revela histórias assim que se juntam a outras crônicas natalinas, como a própria história do nascimento de Jesus.
O dom da vida deve ser celebrado todos os dias. O valor da vida deve ser reconhecido em cada amanhecer e em cada anoitecer. É a grande lição que devemos guardar de cada dezembro, feito de festas e alegrias que deveria ser a mesma para todas as pessoas. Na festa da mesa mais rica ou na mesa menos farta. Foi um ano difícil para muitos? Vamos começar nova jornada logo ali, em janeiro. A vida continua. E representa também o milagre que constitui a própria vida.
Mas o Natal não foi apenas festa.
No Médio Oriente, o Natal fica marcado pelo recrudescimento da violência israelense-palestina. O noticiário das útimas vinte e quatro horas mostra o conflito armado nessa região. O secretário-geral da ONU apelou à calma na Faixa de Gaza. Ban Ki-Moon pediu a Tel Aviv que abra as passagens fronteiriças para permitir a entrada de ajuda humanitária no território palestiniano e apelou ao movimento islâmico para acabar com os ataques de “rockets” sobre Israel.
Durante uma celebração do Hanukkah judaico, o presidente israelita Shimon Peres dizia que “se a população de Gaza quer viver em paz e quer ter passagens livres, só há uma coisa simples a fazer: por fim aos disparos”. O bombardeio aéreo israelita aconteceu no fim de um dia particularmente violento na fronteira israelense-palestina. Mas, nas últimas vinte e quatro horas caíram cerca de cem “rockets” palestinianos em localidades israelitas próximas da fronteira com Gaza.
A guerra não respeita celebrações à vida. Todos os anos repete-se a violência na faixa de Gaza como a coisa mais normal do mundo. Todos os anos, a violência nessa região é parte dos apelos pela paz feitos pela Igreja Católica. O Papa Bento XVI pediu em sua tradicional benção urbi et orbi à paz no Médio Oriente, no balcão da Basilica da Praça de S. Pedro, no Vaticano. Perante milhares de fiéis, o chefe da igreja católica desejou um apaziguamento nas relações entre israelitas e palestinianos e apelou à paz no Iraque e no Líbano. O Papa dirigiu mensagens de paz, também, à África e pediu a estabilidade para o Congo, a Somália, o Darfur e o Sudão. Antes de proferir a benção em 64 línguas, mais uma que o ano passado, o Papa lançou um apelo à solidariedade frente a um “futuro cada vez mais incerto”, num Natal que fica marcado pela crise financeira e econômica mundial. E pelo recrudecimento da violência no mundo.
A banalização da violência em grande escala nos territórios conflagrados mantém o mesmo ímpeto em territórios onde não há guerra. Nos centros urbanos a vida é tratada da mesma forma, seja no Brasil ou outro país qualquer. E as motivações são várias.
Em Moscou, a polícia russa investiga dois ataques violentos contra violinistas da orquestra Virtuosi de Moscovo. Um deles foi hospitalizado com uma fratura no crânio, depois de ser atacado por um grupo de desconhecidos que lhe roubaram um violino. O outro, de origem coreana, foi esfaqueado e sofreu vários cortes nas mãos. O diretor da orquestra disse que esse ataque teve certamente “motivações raciais”. Nos últimos anos, têm aumentado os episódios de violência contra pessoas de origem asiática ou africana em Moscou. Mas a polícia não descarta nem uma rivalidade entre grupos musicais da cidade.
Num subúrbio de Los Angeles, nos Estados Unidos, um homem vestido de Papai Noel abriu fogo em uma festa, na véspera da noite de Natal. Pelo menos três pessoas morreram.
Em Jandira, na Grande São Paulo, um casal foi preso, na quarta-feira, por suspeita de assassinar a facadas uma menina de 8 anos. De acordo com a Polícia Civil, o padrasto, de 25 anos, e a mãe da vítima, de 28, mataram a criança porque ela estaria atrapalhando o relacionamento dos dois.
Em Belém do Pará, a violência se multiplicou na onda de assaltos, com cenas de tiroteio e linchamento. Ocorrências que nem precisam de detalhes, tanto se repetem na cidade que acabam engrossando a pilha de boletins policiais.
Esse é o nosso mundo. Mas não por isso, não por toda desordem e desproteção podemos desistir dele.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Muitos planos e pouca saúde

“Feiras no Largo”, em Évora (Portugal). Brechó da praça

O tempo não pára e é igual para todos na sua inevitabilidade. Mas para a maioria, sem rimas poéticas, é de uma crueldade que se traduz em números, valores e qualidadade de vida

Envelhecer no Brasil não é para qualquer um. Ou a pessoa nasceu em berço esplêndido ou foi favorecido pela sorte e articulações aqui e acolá para superar a pobreza como alguns jogadores de futebol, artistas nem sempre talentosos, mas que com um bom marketing conquistam o mercado – na verdade são mais empreendedores do que artistas – e, como nos mostra a história do País, investir na carreira política, que hoje não é mais apenas uma questão de vocação, mas uma saída para dias melhores que virão.
Envelhecer com dignidade no Brasil é comer o pão que o diabo amassou, perder a qualidade de vida que se foi junto com a tranqüilidade de uma aposentadoria decente, de saúde garantida, casa, comida e paz de espírito.
Mas paga-se um preço muito alto para envelhecer no Brasil, como é o caso dos planos de saúde. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) analisou planos de referência das 16 principais operadoras de planos de saúde do País e constatou uma série de irregularidades e de práticas discriminatórias que, segundo a entidade, tornam inviável o acesso e a permanência de idosos nos serviços de saúde suplementar. O reajuste por faixa etária pode chegar a 104% quando o consumidor atinge os 59 anos, índice muito superior ao verificado nas demais faixas etárias.
A advogada do Idec, entrevistadas pela televisão e jornais resume essa ópera com uma declaração contundente e dolorosa: “As regras existentes hoje não são suficientes para impedir que o idoso seja expulso do plano de saúde após contribuir por muitos anos, pois fica muito caro manter o plano”.
Quem se recorda dessa frase bordada pelo otimismo presidencial?
“Eu acho que não está longe da gente a atingir a perfeição no tratamento de saúde neste país”.
A declaração foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 19 de Abril do ano passado, em Porto Alegre, ao inaugurar as novas instalações da emergência do Hospital Nossa Senhora da Conceição. Mais de um ano atrás.
Se a saúde pública chegou ao nível do atendimento público de países de primeiro mundo, é coisa a conferir. Mas num País como nosso, onde o plano de saúde cria a ilusão de que estamos bem mais seguros, diante da pesquisa divulgada pelo Idec, resta-nos a frustração e a tristeza que, convenhamos, nem o mais alto índice de aprovação presidencial, já alardeado como recorde histórico, consegue desfazer. Que o governo chegue às nuvens e que nosso presidente vocifere contra os pessimistas pelo direito à liberdade de expressão que lhe cabe, mas que saiba que envelhecer neste país é um desafio superado por poucos.
Segundo a pesquisa, um idoso cuja renda fosse de um salário mínimo gastaria 80% desse valor, em média, apenas para manter o benefício. Além do “agressivo preço cobrado”, a entidade aponta problemas como carências excessivas, planos que de forma ilegal não abrangem assistência ao idoso e até mesmo desestímulo a que os corretores vendam planos a maiores de 59 anos. E pensar que a população está envelhecendo previsivelmente no País é projetar o drama a ser enfrentado por quem está à beira dos 60 e sem uma aposentadoria digna. Na verdade, uma aposentadoria que nunca será bem vinda para a maioria dos brasileiros, pois significa jogar mais um no bolsão da pobreza. Isso não é pessimismo. Ao contrário, é de um realismo ponteagudo, desses que não conseguem a disfarçar a dor de quem é cutucado por uma adaga.
Ontem, a declaração de uma senhora aposentada num telejornal traduz exatamente drama que é envelhecer no Brasil. Com o pagamento do plano de saúde dessa aposentada de salário mínimo, o que lhe sobra na hora de sacar o benefício (podemos considerar a aposentadoria um benefício?) são mais ou menos R$ 190,00 reais. E ela perguntava: “Dá pra viver com R$ 190,00?”. Não fossem a ajuda dos filhos e de pessoas caridosas que lhes conhecem as dificuldades de aposentada, a vida dessa senhora seria mais uma entre milhões de miseráveis vidas que nem conseguem ter acesso a um plano de saúde privado.
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) permita reajustes por mudança de idade do segurado, esse índice não pode ser superior a 500% entre a 1ª faixa etária (0 a 18 anos) e a 10ª e última faixa (59 anos ou mais). A ANS determina ainda que a variação acumulada entre a 7ª (44 a 48 anos) e a 10ª faixas não seja superior à aplicada entre a 1ª e a 7ª. Mas a pesquisa verificou que algumas empresas desrespeitam essas regras da ANS, aplicando reajustes superiores a 500% e concentrando os maiores índices nas faixas etárias mais avançadas.
Nunca na história deste Pais, envelhecer foi tão difícil quanto é hoje. Para todos nós, o caminho é irreversível. Para muitos poucos, a irreversibilidade do tempo pode ser amenizada por suporte material e financeiro. Mas envelhecer é negócio para muito, os que levam vantagem por cada ruga que pode ser transformada em cifrão. E nessa hora, sifu o cidadão.

PS. Ah, senhor Presidente da República, que pavor eu sinto quando penso que um dia vou chegar aos 59 anos! Ah, senhor presidente, com certeza eu e outros milhões de brasileiros morremos de inveja da sua trajetória! Quem diz que não tem inveja é um grandissíssimo mentiroso. Porra, estudei, ralei e ralei, apostei no futuro achando que estava no caminho certo, esquentei banco de universidade e de que me adiantou ter ralado? Como é cruel ralar assim! Daria para compor um bolero.

E o que o senhor tem a ver com isso? Sifu ou mifu?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Corruptos devem cair

Quem foi eleito para cuidar do País, dos estados e dos municípios deve ter em mente, sempre, o compromisso que assumiu com a honestidade e com a transparência
Num País tão grande como o Brasil, muitas coisas se realizam com a mesma grandiosidade, seja gravitando ao redor do poder constituído ou de outros segmentos de reconhecida importância econômica e financeira, aqui citado apenas a título de ilustração. Comparativamente, essa grandiosidade territorial abriga outras que, como prática, são condenáveis a olho nu, independente de decisões judiciais.
Tão grande quanto o País são a corrupção e a impunidade que passeiam de mãos dadas com a conivência de uma fileira de interessados em que essa dobradinha continue enchendo cofres e alimentando o poder.
O Brasileiro gosta desse estado de coisa? Fechamos os olhos por indiferença ou conveniência? Para quem acredita em pesquisas, a que foi feita pelo Ibope no primeiro semestre deste ano afirma que a maioria dos brasileiros condena a corrupção, mas, se tivesse uma oportunidade, seria capaz de roubar dinheiro público. Essa intrincada relação entre poder e dinheiro move montanhas muito mais que possa sonhar nossa vã fé, já que não cabe nesse contexto os mistérios que nenhuma vã filosofia possa imaginar.
A sentença produzida pela pesquisa é polêmica e não pode ser considerada verdade absoluta. Se assim fosse, não haveria sentido termos justiça e cidadãos indignados que vêm engrossando movimentos contra a desordem instalada e incentivada por quem de direito. É o caso, por exemplo, do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, que já emplacou mais de meio milhão de assinaturas favoráveis à causa.
Diante de iniciativas como essa, há como estimular um real sentimento de honestidade nos cidadãos? Há como acreditar na Justiça como resposta aos clamores de quem está cansado de ver desordem e falso progresso?
É um descalabro a fraude ao fisco que vinha sendo investigada pela “Operação Paço de Cristal”, desencadeada pela Receita Federal do Brasil e que detectou o desvio de mais de R$ 200 milhões praticado por 67 prefeituras do Pará, uma montanha de dinheiro que pode ser bem maior. E as irregularidades constatadas somam ainda o descumprimento de obrigação acessória, ou seja, a não-entrega da Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP). Essa prática também configura crime tributário, tendo como uma de suas conseqüências aplicação de multa ao infrator, no caso, geralmente o gestor municipal. Uma multa de R$ 1,7 milhão já foi aplicada a um único prefeito, nessa operação, além de denúncia ao Ministério Público Federal por crime contra a ordem tributária.
Que governos foram esses que escolhemos no voto? Que gestores são esses em que depositamos confiança? Não há passe de mágica na transformação dos eleitos no trajeto entre palanque e o palácio, pois o projeto pessoal já estava definido, bem antes das promessas nos comícios em praça aberta ou nos programas de televisão.
O brasileiro - e muito menos o paraense - não pode ser confundido por conta do desmando, da desonestidade e da incúria de poucos. Como os que assumiram a responsabilidade de governar seus territórios, os mesmos que com suas gestões desastrosas, por exemplo, levam os holofotes para um estado como o Pará, que, lá fora, coleciona títulos encardidos, fichas sujas, corrupção galopante, assento especial no mapa nacional da pobreza divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome, fonte oficial de uma história triste da qual todos nós somos personagens – uns na miséria e outros se locupletando.
Como podemos nos proteger dessa bandidagem do colarinho branco? Como as lagostas, que precisam de um período de defeso? Não podemos nos aquietar nem nos conformar com a falsa premissa do “justiça seja feita” por tempo indeterminado.
O próximo dia 9 de dezembro, Dia Mundial de Combate à Corrupção, é um bom momento para manifestações contra esse estado de coisas. Em Belém, o tema será debatido em seminário organizado pela Controladoria Geral da União. Dias para reflexão e para soltar a voz. Assim podemos encontrar o caminho da Justiça e da punição para quem merecer ser punido.
Por falar em Justiça, mesmo quando ela se faz em pequenas causas, deixa florescer a crença de que o cidadão tem direitos inalienáveis. E por isso, vale a pena contar o caso de um empregado da empresa paranaense de transportes coletivos demitido por justa causa sob a acusação de ter violado norma interna ao comprar de um passageiro onze vales-transporte para uso pessoal. Ele conseguiu converter na Justiça Trabalhista a justa causa em dispensa imotivada. E a defesa precisa do ministro Ives Gandra Martins Filho, Tribunal Superior do Trabalho estabeleceu o equilíbrio dos pratos da balança ao sentenciar: “Deve haver proporcionalidade entre a conduta do empregado e a penalidade aplicada pelo patrão”. O ministro apresentou outros argumentos para a defesa do trabalhador, que tinha uma ficha exemplar.
Essa proporcionalidade entre a conduta dos gestores e a confiança neles depositada pelos eleitores pode muito bem ser aplicada nesse caso. Governos corruptos devem ser cassados por traírem a confiança do cidadão simbolizada pelo voto.

domingo, 30 de novembro de 2008

Deus e o Diabo na terra da devastação

Imagine, mas só imagine como se fosse um cantador de cordel, contando para uma platéia que depois que a floresta se for, o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão

Mais se faça ou mais se diga, o Pará sempre entra na lista das coisas negativas ainda que positivas sejam agendas, ações e intenções na discussão em vários segmentos, das ONGs aos governos, dos empresários às instituições de ensino superior, das sociedades de direitos humanos às pastorais. É desanimador ouvir notícias que correm os quatro cantos do mundo solapando o que o Estado tem de bom e personificando o Pará como um bad boy da história.
Em Paragominas, a revolta dos carvoeiros contra a apreensão de madeira ilegal de áreas indígenas que resultou em depredação da sede do Ibama e o incêndio criminoso dos caminhões que transportavam a carga e a madeira, são um atentado contra as autoridades numa terra de direitos onde o direito precisa ser aplicado com rigor contra os crimes ambientais.
Em cena entra o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, com discurso forte e ameaçador contra madeireiras que atuam ilegalmente e que resistem a multas e autuações ao longo do tempo como se a punição fosse a coisa mais banal do mundo. Mais adiante, passado o calor do discurso e das medidas punitivas, sem dúvida nenhuma, os ilegais continuarão a agir na calada da noite e à luz do dia, devastando a floresta, vendendo madeira sem certificação que, infelizmente, é negociada em outros Estados que não assumem qualquer responsabilidade na transação porque os negócios e os lucros são mais importantes numa total falta de razão e sensibilidade. E como esperar qualquer um dos valores dos que agem ilegalmente?
Foi-se o ministro e a vida continua. Chegou a sexta-feira, 28 de novembro, e já amanhecemos com os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, colocando o Pará no pódio como campeão dos vilões da floresta, a partir das estimativas do desmatamento por corte, ou seja, remoção total da cobertura florestal, na Amazônia Legal, de agosto de 2007 a agosto de 2008. Pará e Mato Grosso os grandes atletas da destruição. A taxa de desmatamento neste período teve um aumento significativo em relação ao período anterior, atingindo 3,8% ou em números absolutos, 11.968 km2. Quase a metade desse número da devastação fica com o Pará, que desmatou neste período 5.180 km2 da floresta amazônica, segundo dados do Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal, divulgados na sexta.
Não faz mais "marolinha" esse tipo de notícia? Pior para quem assim pensa, como os mais interessados em explorar a floresta no que ela tem de sustentável e de pouca sustentabilidade de fato para quem dela vive de maneira honesta. O fato é que desovar números dos crimes ambientais não provoca reações permanentes ou se as provoca elas são pontuais, sob holofotes e flashes. Quem está se importando se os números do desmatamento são comparáveis a não sei quantos mil campos de futebol ou se já equivalem ao Estado de São Paulo ou dezenas de Vaticano? Devem pensar, ah! Isso é terror pregado pelo pessoal que faz cobertura jornalística ambiental e organizações que querem aparecer como os mocinhos de novela combatendo as vilanias da favorita.
Não é bem assim e os efeitos dessa guerra contra o verde se farão sentir, sim, pelo desmatamento e ocupação desordenada, pela savanização da região que parece a casa da mãe Joana, em linguagem figurada, mesmo.
Essa falta de prevenção, apesar da previsibilidade, torna cada dia mais vulnerável a região, a exemplo de Santa Catarina, que tem seus méritos na decomposição ambiental que vive nesses dias de catástrofes naturais e ao mesmo tempo não tão naturais quando contabilizamos os mortos, que entram na casa das centenas.
Hoje o Brasil vive uma era que vai além da ficção à La Glauber Rocha do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, mas que o endiabrado cineasta deixou em aberto para contarmos que Deus e o Diabo vivem também no meio das enchentes, catástrofes e desmatamentos. Ajuda de um lado, desgraça de outro.
Essa história do desmatamento da Amazônia nem precisa de um longa metragem para levar às telas do mundo o que estamos fazendo por nós ou contra nós. Basta um curta, de dez minutinhos no máximo, com dois cantadores de cordel contratados no Nordeste, talvez cegos talvez não, para iniciar a cantoria:
- Vou lhes contar uma história que é de verdade e de imaginação, ou então que é imaginação verdadeira: O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão.
"Que assim mal dividido esse mundo anda errado. Que a terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo!" (Glauber Rocha e Sérgio Ricardo)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Mapa da pobreza

O que o Brasil tem de diferente? Muitas coisas, inclusive as diferenças regionais que fazem o país rico para os muito ricos e pobre para os muito pobres no mesmo tempo e espaço. Basta folhear velhas lições da contradição do desenvolvimento econômico e social que cada canto do país vive. Há crise mundial, o país se assusta, mas segue em frente, sem se importar com as más línguas dos profetas do apocalipse, que sempre fazem os governos reagirem mal e proclamarem os esforços feitos para mudar isto ou aquilo. Mas fato é fato e não pode ser mudado com ações pontuais sobre grandes feitos e planos para um futuro que nunca chega, que é miragem para muita gente. Por isso, tapar o sol com a peneira permanecerá como o grande desafio a sombra absoluta. Assim como a realidade, que deixa, às vezes, vazar luz demasiada ainda que se procure o aconchego de um quarto à meia luz.
O governo federal criou mais um índice que será apresentado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e que expõe o Brasil que não queremos: o país da miséria, da pobreza danosa, violenta. A notícia não deve ser vista como gradações de escândalo pelo fato de envolver o governo, até mesmo pela razão de o próprio governo ter criado mais um instrumento para mostrar a cara do Brasil. O certo é que o novo índice é uma grande base de informação para a elaboração de políticas públicas, normalmente carentes de dados consistentes, mensuráveis e confiáveis.
Pois bem, estamos diante do novo Índice de Desenvolvimento Familiar (IDF), que será apresentado Ministério e que traça o mapa da pobreza no Brasil. Esse índice se baseia na vulnerabilidade familiar, escolaridade, acesso ao trabalho, renda, desenvolvimento infantil e condições de habitação. Essas informações têm origem no Cadastro Único ministerial que é um instrumento de coleta de dados e informações com o objetivo de identificar todas as famílias de baixa renda existentes no país. O IDF, além de poder ser calculado para cada família, foi construído de modo a ser aditivamente agregável, segundo a apresentação feita pelo Ministério do Desenvolvimento Social na internet. A partir desse novo instrumento, pode-se, com base nele, não apenas obter o grau de desenvolvimento de bairros, municípios ou países, mas também de grupos demográficos como negros, crianças, idosos ou analfabetos.
A luz que vaza pela peneira da realidade do IDF, mostra que a região Norte é a mais pobre do Brasil. É o lado distante do Brasil Central. Ainda que os programas sociais anunciem mil benefícios e beneficiados, o assistencialismo do estado não tem a força de uma ação revolucionária, quando o que o povo quer mesmo é ocupação e renda. A nota triste do caso é, realmente, a falta de alcance das políticas públicas em relação aos povos da Amazônia, onde a pobreza é escancarada. Juntando-se o assistencialismo à falta de trabalho e baixa escolaridade temos o prato feito dessa cozinha onde o Amazonas desponta como o estado com a pior situação de miséria, seguido do Pará e do Maranhão. Não escapa dessa perversa pobreza nenhum estado da região Norte.
Voltemos à distância que nos separa do poder central instalado em Brasília. Entre as capitais brasileiras, onde o Estado brasileiro está mais próximo, a situação é um pouco melhor. Não há nenhuma capital entre os 500 municípios com piores Índices de Desenvolvimento Familiar. Mas se nos distanciamos do Planalto, os índices mostram o que não queremos ver: Macapá (AP) e Porto Velho (RO) têm as piores situações, com IDF 0,48. Mas Belém (PA), Manaus (AM) e Rio Branco (AC) aparecem com 0,49 apenas. São Paulo, a cidade mais rica do País, tem um IDF de 0,55, igual ao de Teresina (PI), Natal (RN) e Aracaju (SE). Curitiba e Salvador são as melhores capitais, com 0,59 e 0,58, respectivamente.
De posse desses dados, cada cidadão deve cobrar o voto colocado, ou melhor, digitado nas urnas para escolher os candidatos eleitos para gerir os destinos de suas cidades e dos seus municípios, dos estados e do País. Quando vemos a Amazônia cantada em verso e prosa, em discursos e em palanques anacrônicos, lembrada apenas pela floresta e pelas águas na sinfonia da biodiversidade, impossível não perguntar: e os povos das florestas, e os povos das cidades fundadas no seio da floresta, não fazem parte da paisagem? A Amazônia não pode ser reduzida a cartão postal. Aqui há gente que precisa de qualidade de vida, logo a pobreza precisa ser combatida.
Não dá para tapar o sol com a peneira.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Divas negras de um Brasil brasileiro

Áurea Martins, "Até sangrar": uma voz de encantadora de serpentes
O Brasil da música popular e outras bossas e sambas de primeira grandeza pouco reconhece suas pérolas negras. Nesse colar de contas, uma ou outra escapa da fieira e se destaca em curta temporada, demora um pouco mais na mídia porque é de bom tom para gravadoras, emissoras e patrocinadores terem em seu cast personagens de um país que não assume a segregação racial ou preconceito étnico – ou de cor, como não gostam de falar os politicamente corretos -, mas que discrimina o negro, sim senhor. Há quem derrube esses muros e entre para a história e que são intocáveis, autênticas divas que, ainda assim, não são cultuadas como merecem ou são lembradas apenas em momentos especiais, normalmente regidos por interesses marqueteiros como se passa na guerra de audiência das redes de televisão. Exemplo disso são os 50 anos da Bossa Nova que reviraram o mercado musical movido mais por lucro do que por reconhecimento ao artista brasileiro desse movimento que é mais cortejado e respeitado em outros países.
Aqui, as novas gerações pouco conhecem Clementina de Jesus ou Elizeth Cardoso. O Brasil passa muito bem sem elas. Mas não se pode imaginar os Estados Unidos sem Billy Hollyday, Ella Fiztgerald ou Sarah Vaughan, apenas para citar algumas divas que continuam no mercado fonográfico mesmo depois de mortas.
Nas terras tupiniquins, Zuleide Santos da Silva só virou rainha das discotecas brasileiras porque fez um sucesso estrondoso com a música “A noite vai chegar”, do compositor Paulinho Camargo, gravada num compacto simples que vendeu um milhão de cópias e virou trilha de novela da Globo, na segunda metade dos anos 1970. Mas para chegar ao topo das paradas de sucesso deixou de ser uma simples Zuleide para virar Lady Zu, cantora de disco musik, funk, romântico e soul, o que lhe valeu o título de “Donna Summer brasileira”. Mas o sucesso passou. Lady Zu continua no show business, mas sem o mesmo brillho do revival da era da brilhantina que lançou para o mundo John Travolta e Olivia Newton John e na teledramaturgia o megasucesso “Dancin´days”.
Liliane de Carvalho, nascida na Vila de Brasilândia saiu de cena e entrou Negra Li, cantora negra que estourou este ano na música, no cinema e na televisão com a série “Antônia”. No primeiro disco, “Negra livre”, teve companhia indispensável em qualquer lançamento, no duo da música “Meus telefonemas”, com Caetano Veloso. Negra Li é a bola da vez e tomara que essa vez se multiplique por mil vezes, pois o sucesso pode ser fugaz, num país feito de musas e divas onde a participação das cantoras negras é pouca. Mais ainda nos dias de hoje, quando mercado quer mais que uma voz bonita e o negócio está mais para bundas e peitos siliconizados.
Nada a lamentar, diga-se. Mas perde quem não conhece, por exemplo, a dramática afinação de Alaíde Costa, o canto negro escancarado de Clementina de Jesus, a divina voz de Elizete Cardoso, as nuances e sutilezas de Rosa Maria que hoje encarna dona Benta do Sítio do Pica-Pau Amarelo; a saudosa Carmem Costa. Todas elas, divas pouco cultuadas no Brasil brasileiro, breve referência à aquarela de Ary Barroso, compositor que era tão exagerado na brasilildade como foi o inesquecível Cazuza muitos anos depois.
Poucas cantoras negras se mantêm por muitos anos em cartaz, mas para isso suaram muito até impor respeito e reconhecimento, como a marrom Alcione e essa instituição nacional chamada Elza Soares, uma mulher dura na queda.
O universo musical verde-amarelo perdeu-se um pouco na rotação entre as 78 rpm e a enxurrada de CDs que as gravadoras despejam no mercado e que formam montanhas com a devida parceria da pirataria tão combatida e jamais vencida. À produção das grandes gravadoras juntam-se a de pequenas e a das alternativas. É difícil separar o joio do trigo no corre-corre nosso de cada dia. Não há qualidade no ouvir música na velocidade que as urgências e prioridades do dia-a-dia nos impõem. Daí a música vem pelo celular, pelo iPod e no carro onde ficamos trancafiados em ar condicionado para nos ilharmos do estresse que nos causa o trânsito. E aí viramos autômatos, mesmo quando selecionamos o que nos dá prazer num cd-rom caprichado. Ou ouvimos em série o que os DJs colocam no rádio de acordo com o gosto deles, o que dita o mercado ou o jabá.
E sendo assim, damos uma pausa no Coldplay, banda inglesa de rock pós-britpop formada em 1998 em Londres, Inglaterra, conhecida por suas músicas introspectivas e formatada para os tops hits internacionais e abrimos passagem para Áurea Martins, que está nas lojas com um disco de rara beleza chamado “Até Sangrar”, que saiu este ano, pelo selo Biscoito Fino.
São 14 canções gravadas, entremeadas por medleys em uma voz que é voz de verdade e não um disfarce que se confunde com os arranjos ou artifícios de mesas de gravação e softwares usados por cantores que não sustentam um dó de peito. Ou seja, ouvir Áurea Martins é saber que ela canta sem efeitos especiais, é gogó e emoção.
O disco “Até Sangrar” chega às lojas cinco anos depois de um disco solo gravado de maneira independente, com a produção e a direção musical do violonista João de Aquino - de quem Áurea regravou na ocasião o clássico Viagem, a parceria de Aquino com Paulo César Pinheiro, eternizada na voz de Marisa, a Gata Mansa. O primeiro álbum de Áurea foi editado em 1972 pela RCA Victor, mas a cantora não tem uma discografia regular. Sua participação pode ser conferida em algumas coletâneas especiais, como os songbooks de Tom Jobim e Chico Buarque produzidos por Almir Chediak.
Cantora das noites cariocas, Áurea Martins tem muito chão trilhado na música e os mais de 40 anos de carreira lhe granjearam o respeito no que tem como ofício, que é cantar. E cantar como intérprete de primeira linha.

Crooner de fino trato

Áurea nasceu em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro e passou a infância embalada por música: a mãe era cantora, o pai tocava violão, um tio tocava sax, o outro clarinete e eram músicos profissionais. O avô tocava banjo. Ainda criança, Áurea participava do coral da igreja Nossa Senhora do Desterro, do bairro em que nasceu.
A música foi um caminho inevitável. Ela começou sua carreira artística na Rádio Nacional, no programa “Tribunal de Melodias”, comandado pelos atores Mário Lago e Paulo Gracindo. Áurea foi contratada pela emissora logo após a primeira apresentação e passou a integrar os programas de Paulo Gracindo, César de Alencar e Manoel Barcelos e em boa companhia. Desses programas participavam Elis Regina, Peri Ribeiro e Evinha, outra cantora negra que integrava o Trio Esperança, da época da Jovem Guarda, e que depois seguiria carreira solo até trocar o Brasil pela França.
Os anos ´60 foram marcados pelos grandes programas de auditório na televisão. Foi no programa “A Grande Chance”, de Flávio Cavalcanti, que Áurea, cantora do conjunto Os Siderais, levou o grande prêmio: a gravação de um disco e uma viagem à Portugal. O LP contou com arranjos de Luizinho Eça, acompanhamentos do Tamba Trio e a participação do escritor Paulo Mendes Campos declamando Vinicius de Moraes.
Essa época traçou seu destino nas noites cariocas, quando passou a fazer o circuito das mais famosas casas noturnas do Rio de Janeiro, dividindo shows com artistas de peso como Emílio Santiago, Elza Soares, Baden Powell, Johnny Alf, Chico Feitosa, Eumir Deodato, Cauby Peixoto, Durval Ferreira, Paulo Moura, Milton Nascimento, Marisa Gata Mansa, Dona Ivone Lara, Carmem Costa, Leci Brandão, Nelson Sargento, Ivor Lancellotti e Zezé Gonzaga.
No universo do disco, Áurea Martins pode ser considerada uma raridade. O primeiro CD gravado é de 2001, “A Voz Rouca da Crooner”, com produção de Dalva Lazaroni e direção musical de João de Aquino. No disco, ela canta músicas de Milton Nascimento, Nelson Sargento, Dona Ivone Lara, Elton Medeiros, Ivor Lancellotti, Marcio Proença, Dorival Caymmi, Cartola e Baden Powell.
Finalmente, Áurea lança o segundo disco, “Até sangrar”, feito sob medida para almas apaixonadas e nervos de aço. O disco abre com notas clássicas da bossa nova, a música “Ilusão à toa”, de Johnny Alf, compositor negro e um dos pioneiros do movimento musical que revelou ao país uma geração de músicos geniais. Mal dá tempo de respirar e num medley bem sacado a voz de Áurea traz um dos maiores sucessos de Nelson Gonçalves, “Pensando em ti”, de Herivelto Martins e David Nasser.
Uma historiazinha boa de contar sobre David Nasser: um dos jornalistas mais famosos do Brasil, ele era filho de um mascate libanês e vendia pente e giletes na Central do Brasil. Num dia em que a polícia baixou no local para tirar os ambulantes, um jornalista foi ferido e levado para o hospital. David pegou o caderno de anotações do repórter e levou-o ao O Jornal, do Diários Associados. O diretor de redação perguntou a ele se conseguiria escrever sobre o confronto na Central do Brasil. David disse que sim, pegou a máquina de escrever e descreveu tudo o que tinha visto. Ganhou emprego de repórter.
O disco de Áurea Martins é uma prato feito da melhor qualidade. “Até sangrar” passeia por um repertório onde nada há de novo e ao mesmo tempo tudo de novo. Para uma geração que viveu grandes amores nos anos ´50, tem o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues com “Não sou de reclamar”, “Há um adeus”, “Migalhas”, “Um favor” e “Volta”, prova dos nove para quem sabe o que é dor de amor e dor de cotovelo.
Mas que fique claro que o disco de Áurea Martins não é um bordão de lamentações ou uma pesada declaração das cafonices do amor. Pode-se dizer que é um disco elegante, muito bem roteirizado, onde comparecem Ary Barroso (“Ocultei”) João Donato e Lysias Ênio (“Até quem sabe”), Francis Hime e Vinícius de Moraes (“Sem mais adeus”, Herbert Viana e Paula Toller (“Nada por mim”). E mais, “Janelas abertas”, do maestro Tom Jobim, gravada há 50 anos pela divina Elizete Cardoso, no disco “Canção do amor maior”, na verdade o primeiro song book da história da música popular brasileira.
Há grandes encontros no disco, momentos em que Áurea canta com Francis Hime, na música “Sem mais adeus”; em “Valsa dueto”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, afinando-se ao vozeirão de Emílio Santiago, e numa das músicas que foi hit de Ângela Maria, resgatada por Elis Regina e que ganha nova vida com Áurea, “Vida de Bailarina”, dos compositores Chocolate e Américo Seixas - aqui um momento de arranhar os nervos quando ouvimos Áurea e Alcione, dividindo o estúdio num bom duelo de duas cantoras de vozes impecáveis e, melhor, apresentando a versão completa (1954) cantada por Ângela Maria.
A 14ª faixa do disco traz Áurea Martins numa interpretação pra ninguém botar defeito e a voz dela faz uma viagem em “Embarcação”, de Francis Hime e Chico Buarque de Holanda e na maestria do arranjo do maestro Cristóvão Bastos e a participação especial de Francis Hime.
As outras companhias de Áurea no disco “Até sangrar” estão nos bastidores e respondem por uma das excelentes produções fonográficas deste ano, que não e, pelo extremo bom gosto, disco pra tocar no rádio, mas que pode estar na discoteca de quem gosta de música de verdade. A direção artística é de Olívia Hime e sua trupe da Biscoito Fino e a concepção artística e roteiro são de Hermínio Bello de Carvalho e José Maria Camiloto Rocha.
Um breve parágrafo para Hermínio Bello de Carvalho: poeta, escritor, compositor, produtor e um dos maiores conhecedores da música popular brasileira faz uma apresentação curta e preciosa do disco de Áurea Martins. Lá, uma declaração bem ao humor de Alcione, a Marrom, quando soube do título do disco “Até sangrar”, onde teria uma faixa com Áurea Martins: “vou é giletar meus pulsos”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Oh, yes! Queremos banana

Musa de música, de teatro, de cinema, de feira e de supermercados a banana não é mais como antigamente. O produto, que era barato, virou vilão da cesta básica

Se vasculharmos com cuidado nossa memória de consumidor, em tempos de vacas magras ou de gordas vacas, nas altas e quedas das ações nas bolsas de valores, na gangorra do dólar que oscila para cima e para baixo nos tempos de hoje vamos constatar que a economia sempre regeu nossas vidas e, por mais complexo seja o economês, já ouvimos de avós, pais, tios e dos mais velhos, quando comparavam o custo de um produto em liquidação, uma frase exclamativa que foi devidamente sepultada no arquivo morto das lembranças: isso está a preço de banana!
E a comparação saía da mesa para alegria do felizardo comprador de um bem ou de um mimo. Na modista, por exemplo, para justificar os excessos ao marido, a jovem e vaidosa esposa descartava qualquer possibilidade de entrevero conjugal ao dizer que o vestido de baile da mais pura seda não custara quase nada, que a estilista lhe vendera o modelito a preço de banana.
E a metáfora econômica se aplicava a outros casos: a compra de um carro a preço de banana, o arremate da xepa no mercado, tudo a preço de banana e banana era fruta tão popular que era cantada em verso e prosa na música popular brasileira. Oh, Yes, tínhamos banana pra dar e vender. Banana, menina, tem vitamina, banana engorda e faz crescer. Tempos bons na versão do genial compositor carnavalesco Braguinha.
A vitaminada banana levada às telas do cinema americano por Carmem Miranda e para o teatro de revista pela inesquecível Leila Diniz não é mais a mesma, ou melhor, continua a mesma para o seu preço não.
A rainha do potássio foi uma das vilãs na mesa do paraense. Segundo o Dieese, o produto ficou 9,2% mais cara nas feiras e supermercados. E muito bem acompanhada por outros companheiros da cesta básica como o feijão que não é mais o feijão maravilha ao subir 7,02%, o leite, o açúcar, o tomate e a farinha de mandioca. Todos esses os produtos que fazem parte na nossa ração alimentar de cada dia contribuíram para que a cesta básica dos paraenses custasse, em outubro, R$ 195, 31, ou seja, 2,15% que roem o salário mínimo do trabalhador.
Enquanto as coberturas econômicas deitam e rolam na crise global, os bancos centrais abrem as torneiras do crédito para salvar outros bancos e segmentos industriais como o automobilístico; grupos se fortalecem nas fusões e tempos tormentosos são previstos para o novo presidente eleito pelos americanos, o paraense e os brasileiros seguem seu caminho, apesar dos pesares.
São coisas do mundo. Aqui, a notícia do dia foi aumento da cesta básica e na que seria a economia mais desenvolvida do mundo, a dos Estados Unidos, os jornais amanheceram dando um bom dia agourento para Barack Obama. O desemprego nos Estados Unidos atingiu no mês passado o seu nível mais alto desde março de 1994 e alcançou 6,5% da população economicamente ativa, de acordo com dados divulgados na sexta-feira pelo governo americano. O Departamento do Trabalho informou que 240 mil pessoas perderam seus empregos em outubro. Com certeza, Obama começa a provar a ressaca da festa da vitória. Ninguém pense que sua eleição irá resolver problemas estruturais num passe de mágica. O discurso conciliador e esperançoso do eleito ficou no desejo de melhorar o país, o que já estabelece uma boa distância entre o querer e o resolver.
No Brasil, o otimismo exagerado do presidente Lula já baixou a chama para moderada. Por certo sentiremos o efeito da tal crise mundial, mas ela não provocará quebradeiras no país como pregam alguns profetas aziagos em busca dos quinze segundos de fama. Não por isso, Lula deveria se agastar em discursos coléricos contra a oposição vazia. O presidente, se conselho serve para alguma coisa, deveria seguir tranqüilo, fazendo o que deve fazer que é governar o país sem preocupações menores altas e quedas do nível de popularidade. Até porque a preocupação do brasileiro está mais voltada para a mesa, onde deve estar o pão simbolizando o alimento.
É na mesa do brasileiro que está a crise e onde ele vai sentir o que não sabe explicar em distinto, culto e castiço economês.
Dos comuns mortais, o desejo é ter a velha banana de volta, não servir como parâmetro da pechincha, mas porque é alimento rico e sua inclusão no cardápio é recomendada por especialistas, depois que estudos constataram que o potássio na dieta alimentar, em especial para adultos e idosos, tem importante função muscular, inclusive para o coração.
(Público. 09.11.2008)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Faxina é um bom começo

As primeiras edições. Presente para a cidade. Ronald Junqueiro
Em São Paulo e no Rio de Janeiro o nível dos debates começou quente, mas se está alto ou baixo não vem ao caso para nós. Em Belém, começam a ser divulgadas as pesquisas para o segundo turno, mas falta debate. Com o tempo mais apertado, os candidatos têm que mostrar a que vieram até o dia 26, ou seja, restam doze dias para que o eleitor aperte os botões da urna eletrônica para confirmar quem é o próximo prefeito de Belém.

Os candidatos devem ter em mente que a estrela maior de um pleito é o eleitor, um indivíduo que foi amadurecendo ao longo da consolidação de uma democracia que ainda precisa ressuscitar e consolidar valores que não estão mais numa escala de espera da transição política, como o da abertura do país a um novo tempo, iniciado com o fim da ditadura militar. E lá se vão mais de duas décadas.

Será possível que candidatos a cargos eletivos não aprenderam que o eleitor não precisa mais ficar à frente da televisão ou concentrando-se na leitura de jornais apenas para ver lavagem de roupa suja? Os debates até agora parecem formatos de talk show, de pânico na TV, de programas de variedades escandalosos. Mas continuamos a cobrar a apresentação de projetos políticos de quem pleiteia assumir a administração da cidade. Aos candidatos cabe apresentar e defender esses projetos. Ressalve-se: projetos e não promessas recheadas de delírios faraônicos.
Belém precisa de um prefeito gestor, sem as vaidades políticas de cunho partidário ou pessoal. Nos tempos modernos as cidades dispensam governos personalistas a assinar em placas de inauguração benfeitorias como quem faz um rol de roupa na lavanderia. Gestão é aprendizado constante e gerado a partir da realidade vivida.

A Belém de hoje não é a Belém de Antônio Lemos. O que foi feito àquela época ficou. A cidade cresceu e o óbvio ululante é que com ela cresceram os problemas, muito mais que as soluções apresentadas até aqui, que foram poucas ou nada, ou que foram ignoradas por picuinhas partidárias ou postergada por não se enquadrarem ao modo do governante.

A ocupação da cidade, a destruição das áreas verdes, as invasões de terras urbanas sob condão político, o trânsito caótico que todos enfrentam diariamente num centro que não tem mais para onde crescer, o sistema de transporte público marcado pela precariedade do serviço, a falta de vias alternativas, o saneamento básico que não contempla toda a área urbana e um código de postura que o cidadão não conhece e que deveria conhecer são apenas pontas do iceberg.
Caminhamos por ruas mal cuidadas, por calçadas desniveladas, desviando de fachadas de residências que avançam o limite permitido para a construção e de tapumes que atrapalham o transeunte, por carros que estacionam em filas duplas, triplas, o que não ocorre apenas nas portas das escolas. Hoje isso acontece em frente a lojas comerciais e repartições públicas, em esquinas com semáforo, onde carros atrapalham a vida de motoristas que muitas vezes ficam presos no sinal verde porque um ou outro motorista decidiu estacionar ou parar para a descida de passageiros. Desordem e egoísmo andam de mãos dadas.

Prefeitos deveriam ser que nem boas donas de casa, muitas com jornadas exaustivas de trabalho e que são exemplos de administradoras. Cuidam da família, da casa, da alimentação, da educação, da saúde dos seus, até trabalham fora para sustentar e complementar a renda, planejam o orçamento e, por mais que durmam de consciência tranqüila, nem sempre o sono é recompensador, pois no dia seguinte começa tudo de novo, no café da manhã.

Prefeitos ideais não são deste ou daquele sexo, mas devem encarnar a alma empreendera, de liderança, de comando e organização que as boas donas de casa têm – e quando se fala em boas donas de casa, o título é para mulheres que são boas donas de casa, pois há exceção. No exemplo, não há feminismo ou machismo. Prefeitos são apenas prefeitos e podem ser bons ou maus gestores, mas têm que aprender que uma casa organizada começa pela a faxina. Logo, devem varrer a vaidade e a ambição política para fora da cidade, pelo bem público, arregaçar as mangas e trabalhar, trabalhar duro, para que Belém seja uma cidade que encha de orgulho seus habitantes. Esses, certamente reconhecerão o autor da faxina. (Público, 14 de outubro de 2008)


Belém ganhou um novo jornal. Desde o dia 5 de outubro está nas ruas o Público, que abre mercado de trabalho para jornalistas e profissionais de várias áreas e que é uma conquista para o segmento da comunicação, pois há anos o estado tem só dois jornais diários: O Liberal e o Diário do Pará. Brevemente, o Público estará na Internet.

domingo, 12 de outubro de 2008

Feliz Círio 2008!

A berlinda onde a Virgem segue na procissão. Ronald Junqueiro
Segundo domingo de outubro. Às cinco da manhã começa a missa em frente à Catedral de Belém. De lá sairá a romaria do Círio de Nazaré, a maior manifestação religiosa da Igreja Católica no Brasil.

Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses, é seguida na procissão do domingo, por quase dois milhões de devotos. É um instante de puro sentimento. E viver essa emoção íntima escapa a qualquer explicação ou tese acadêmica.

Que a Virgem de Nazaré abençoe todos nós e inspire a humanidade para se unir e lutar por um mundo melhor para quem acredita que esse é nosso momento à superfície da vida e queremos ele seja o melhor do tempo que aqui nos cabe.

A devoção à Virgem completa 216 anos. O Círio é considerado o Natal dos paraenses. Do congraçamento na família, encontro com os amigos e uma alegria que brota como olho d´água. O segundo domingo de outubro é o dia do banquete, de fartura com tudo o que se tem direito, com a mesa mais brasileira que se pode provar, da maniçoba ao pato no tucupi, comidas de origem indígena, culinária sofisticada.

A imagem da Virgem Peregrina saiu no sábado, na procissão da trasladação, do Colégio Gentil Bittencourt até à Catedral, onde se realiza a vigília até às 7 horas. A romaria noturna durou seis horas e meia.

A cobertura da festa e um pouco da história estão no site do Portal Basílica de Nazaré.