sábado, 19 de julho de 2008

Hello Dolly!

Há luz no fim do túnel. A questão é calcular a distância. Ronald Junqueiro

Dolores Costas Bastos fez 101 anos de vida, no dia 23 de junho. É muito tempo? No Brasil, sim. Aqui se morre mais cedo porque a qualidade de vida está abaixo da linha da alegria de viver e por outros motivos que muita gente é testemunha de primeira mão – da fome, passando pela infecção hospitalar até bala perdida. Nessa perspectiva a morte é perfeito modelo democrático, vale para todos de acordo com o princípio da igualdade e da incúria, como queiram.

No aniversário, ela ganhou mousse de limão e perucas com fios egípcios, presentes do amigo e cabeleireiro Julinho do Carmo. Pelos cálculos de Dolores, ela estaria completando 103 anos, pois o registro foi feito com atraso, lá na sua longínqua Santa Maria Madalena, que nem parece estar no mapa do Brasil, que fica no interior do Rio de Janeiro, mas que agora vai entrar para o roteiro turístico como a cidade que viu nascer a mais irreverente e autêntica mulher da comédia brasileira. O prefeito declarou luto oficial de uma semana.

Comediante sem papas na língua, Dolores que se recriou como Dercy Gonçalves, não será unanimidade, mas isso é a sina dos gênios. Mais tarde, bem mais tarde, é possível que vire alentada tese acadêmica. Autobiografia já tem – ‘Dercy de cabo a rabo’. E talvez mereça maior reconhecimento das redes da televisão que a contratavam por um fio, numa censura branca que sempre tirou do ar outros artistas brasileiros da maior qualidade como, por exemplo, Leila Diniz, outra mulher inesquecível.

O Brasil deve se curvar à gente como Dercy Gonçalves, que não fez da hipocrisia ou desse arranjo intitulado “politicamente correto” uma esfarrapada justificativa para forjar o reconhecimento e a tal ansiada e burra unanimidade.

Lá se vai Dercy! Fica um vazio na irreverência necessária a um país de bem, fica o vazio do humor fundamental para representarmos nossa indignação diante dos desmandos e do desrespeito ao cidadão e fica o vazio do riso, ao qual se dobra a Ciência ao reconhecer que “rir é o melhor remédio”, sem distinção de marca ou recomendações genéricas.

Numa entrevista a Jô Soares, há dois anos, Dercy não deixou a peteca cair e cai de pau (de pau???) em políticos corruptos. Não precisou chegar aos 80 anos para dizer o que sempre quis, mas depois dos 80 ficou mais fácil. Quando Jô pergunta se ela não tinha medo de ser processada, rápida no gatilho, Dercy recorre à prerrogativa do tempo e do direito que em seu caso é indiscutível:

- Quero ver quem tem moral de vir me processar... Que venham que eu dou um ‘bucetada’!...

Cadê Mulher Melancia, Moranguinho, Boing Boing e outras frutas para dar ‘bucetadas’ em quem merece? A famosa bucetada antídoto ou veneno, dependendo do caso. Ao cabo e ao rabo, como se vê, a questão não é estética, mas de cabeça. O cérebro não está exatamente no baixo ventre e nem acompanha a boceta que insiste em ser alpinista e escalar as alturas para se instalar no cérebro. Cada qual no seu cada qual, de acordo com a geografia do corpo.

Hello Dolly! Bom seria deixar de lado a discussão bioética e aproveitar as lições do geneticista Ian Wilmult para liberar a clonagem do humor, do riso e de um exército de Dercys.

Nada de lamentos, o sábado deve estar morrendo de felicidade por ter a companhia da impagável Dolores Costas Bastos.


segunda-feira, 14 de julho de 2008

Benção, Bossa Nova

Velhas revistas e livros. Recortes e memórias. Ronald Junqueiro

Bossa Nova é uma colagem. Coisa boa do Brasil. A data do nascimento é incerta, mas o certo é que ela nasceu no berço esplêndido dos anos dourados. Mas isso ‘são outros 500’ ou 50, quem sabe? Um cantinho, um violão. E Tom & Vinícius, mestres que andaram em companhia de outros mestres, de vozes inesquecíveis como as da divina Elizeth Cardoso, Sylvia Telles, Nara Leão, Alaíde Costa, e de compositores de fino trato como Carlos Lyra, João Bôscoli, Sérgio Ricardo, Luis Bonfá, Luis Carlos Vinha, Johnny Alf, Newton Mendonça, João Donato, Baden Powell, Roberto Menescal, Francis Hime, Billy Blanco e ele, João Gilberto. Depois deles, vieram as crias dos anos ´60 e a prova irrefutável de ser o Brasil um país musical de ouvido musical. Não vamos esquecer que a cantora paraense Leila Pinheiro fez a diferença com regravações de clássicos da Bossa Nova no final dos anos ´80.

Essas não são lembranças para rodar o dia todo cantando “Chega de Saudade”. Mas revirar os guardados e os recortes da história recente é fundamental para entender o que é ser brasileiro sangue bom. Que é melhor ser alegre que ser triste, como dizia o poetinha. Isso pode ser feito com um passeio pelos songbooks produzidos por Almir Chediak, da Lumiar Editora.

Leituras recomendadas:
Chega de Saudade, Ruy Castro – Companhia das Letras
Ela é carioca, Ruy Castro – Companhia das Letras
Feliz 1958, o ano que não devia terminar, Joaquim Ferreira dos Santos – Record

...50 anos depois, vemos que muita coisa também não mudou, como a ironia, a genialidade e o desafinado narigão de Juca Chaves. Prova disso é sair por aí, assobiando e cantando mentalmente um trechozinho do presidente bossa nova, título que atravessa gerações.

Bossa nova mesmo é ser presidente

Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original.
Depois desfrutar da maravilha
De ser o presidente do Brasil...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cartão postal





Amazônia, destino: natureza morta. Ronald Junqueiro

A quem pertence a Amazônia? Com certeza não pertence aos que nela habitam. E os povos daqui vieram muito antes da invenção do Brasil, da ocupação desordenada e das invasões. Agora, um bando de senadores do colarinho branco aprova uma tal medida provisória 422 que aumenta a área da Amazônia Legal que pode ser concedida pela União para uso rural sem a necessidade de licitação. O limite salta dos 500 para 1.500 hectares. A proposta, que ainda depende da sanção presidencial, prevê que até 20% da área concedida poderá ser desmatada.
O Brasil não tem mais políticos por vocação política e nem por amor à pátria. Na hora certa, eles exibem uma xenofobia momentânea, aos sabor do marketing verdeamarelo, mas são mais vorazes que os estrangeiros e sua eterna cobiça pela região.

Quem é o inimigo do rei, afinal?

Daí vêm os ministros enrolados em cobras, como o Jobim, posar para fotografias de primeira página como se fossem Indiana Jones saído das telas de cinema, numa falsa intimidade com uma Amazônia que eles não conhecem. E falam que falam que defendem seus 21 milhões de habitantes. E os defendem do quê, exatamente? Dos grileiros, dos sojeiros, dos agropecuaristas, dos madeireiros, dos exploradores de minérios?
Daí vem o presidente, que mal conhece o Nordeste e ficou apenas na cartilha metalúrgica do abecedê paulista, com sua voz roufenha e sem brilho, a deitar discurseira sobre uma Amazônia que nem lhe passa pela cabeça geograficamente ignorante. E defende o quê, exatamente?
A floresta não é intocável e quem nela vive bem sabe disso. Viveram muito bem antes de existirem deputados, senadores e presidentes da República, essas coisas inventadas que vieram muito depois. E brigam porque? Não pela Amazônia, mas pelo poder de manipular o mundo, de se manter no poder, de vender a alma ainda que lhes custe a alma dos filhos que pariram ou ajudaram a parir.
Senadores e deputados ficam no planalto e só passam pelas metrópoles, pelas capitais e shoppings quando voltam às suas terras natais por acidente. Só ultrapassam esses limites em anos eleitorais. No mais, vivem num bembom danado, achando que a violência na selva fica por conta dos animais. Bicho, na verdade, tá na fila para entrar na lista das espécies em extinção. Moral inversa. Quem mata no campo e na floresta são os homens a mando dos homens e da sua ambição, dos governos incompetentes por natureza e por falta de ética e de espírito público.

A Amazônia parece fadada a virar savana e pasto.

domingo, 6 de julho de 2008

Vida boa, vida breve

Elas vieram de longe. A vida é prova de resistência. Ronald Junqueiro

As orquídeas ficam num canto do improvisado jardinzinho suspenso que jamais se igualará aos jardins da Babilônia. Elas florescem o ano todo, adaptadas à vida em vasos arrumados na direção do nascente. O verão é excitante, fecundador. E as arundinas se multiplicam e se derramam em flores de vida breve. Não exigem cuidados excessivos e paranóicos de jardineiro amador. É suficiente regá-las e vitaminar a terra de vez em quando. E daí a natureza toma seu rumo sem frescura. Mas as arundinas falam, também, que as conexões com o planeta são reais e não dependem de um clique virtual para ativar um mundo que pode estar oculto nesse ciclo de vida e morte, o nosso cotidiano. Se nós, como as orquídeas, encontrarmos um solo, um cantinho de terra e liberdade abrimos caminhos para outras gerações, o que é, verdadeiramente, a essência da imortalidade. Há um tempo para todos e a vida é a maior prova de resistência. Nada acaba em cada um de nós e nem em quem periga entrar para a lista de espécies em extinção.

- Tão belas essas orquídeas! Vieram de Burma, lá do outro lado, bem distante, milhas e milhas, e nem imaginaram que viveriam numa rua aqui do bairro da Pedreira, em Santa Maria de Belém do Grão Pará, Amazônia, Brasil.

(Com a pompa e circunstância da botânica, as flores da sacada são conhecidas como arundina bambosifolia, da família orquidácea e da espécie graminifolia. Isso é o que se chama, na moral, uma verdadeira árvore genealógica. As arundinas não precisam pagar terapias de regressão. Podem ter nascido nos jardins de monges budistas de Myanmar – ex-Burma ou Birmânia – esse país tão looooooooonge, no sudeste da Ásia, que nem nos damos conta de tal existência. Aliás, em 2007, a repressão às manifestações contra o regime militar, instalado no país há 46 anos, fizeram muita vítimas, entre elas os pacíficos monges. Coisa de países abençoados por Deus, como o nosso verdeamarelo pa-tro-pi. Como desgraça pouca é bobagem, um dos poucos momentos para quebrar o isolamento internacional vivido pelo país, em maio, por um ciclone, sob medida, que deixou mais de 15 mil mortos e mais de seis milhões de desabrigados. O fluxo de turistas ambientais e da rede solidária internacional deve ter aumentado pra caramba, pois Myanmar é um dos países menos visitados por turistas no continente asiático. Guardadas as proporções, o Brasil ainda é um paraíso).

Oceano de sabedoria

Tenzin Gyatso nasceu no dia 6 de julho de 1935. É o 14º Dalai Lama, título que significa “Oceano de Sabedoria”. Mas hoje não haverá espetáculos musicais e de dança como em outros anos. O governo tibetano exilado na Índia cancelou todas as celebrações dos 73 anos do líder em consideração ao sofrimento do povo do Tibete. Este ano, a cidade de Lhasa, capital tibetana, virou praça de violentos protestos que resultaram em mortes e muitas detenções.

O Tibete é administrado pela China desde 1950 e luta para ser um país autônomo que quer viver sua cultura, linguagem e religião. O povo é massacrado pela China.

Vida longa para o Dalai Lama!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Belém é logo ali!

A cidade entre as ilhas, mas aqui não é Manhattan. Ronald Junqueiro
Paraense não usa o dedo indicador para apontar onde ficam as coisas. Usa a boca, faz um bico e diz "é logo ali!".

terça-feira, 1 de julho de 2008

Céu sobre Belém

O azul dourado. Não há ó gente, ó não! céu como este. Ronald Junqueiro

Mudança do tempo. Começaram os dias mais claros e de calor intenso, quebrando a barreira dos 30º. A temperatura máxima vai subir mais. Agora é verão. Belém não consegue esconder-se aos olhos de cada um, mesmo que a invasão dos edifícios, esse empilhado urbano da construção civil de estética duvidosa, escondam aos poucos os céus que muita gente conheceu algum dia. Leva o verde da cidade e deixa a cor da grana no bolso de quem não está nem aí para um pedaço de grama. Leva até o sossego das cobras. As sucuris, uma espécie comum na região, têm que aprender a viver na tubulação do esgoto. Como não podem contar com hospedagem no Museu Goeldi e, em alguns casos, serem devolvidas ao seu habitat, onde o déficit habitacional para todas as espécies cresce assustadoramente, acabam sendo mortas pela população assustada com essa invasão dos bichos sem floresta. Fim da cadeia alimentar. Aqui não é terra para anaconda.

(Belém e seus parques foram encurralados pela especulação imobiliária, falta de fiscalização e de planejamento urbano por parte da administração municipal. O Parque do Utinga, por exemplo, onde ficam os lagos Bolonha e Água Preta, que abastecem mais de um milhão de pessoas com água, vive hoje a ameaça da expansão dos bairros e das construções imobiliárias do entorno. Belém é o paraíso das construtoras. O metro quadrado atinge facilmente o valor de três mil reais. Tudo é vendido, na planta! E aqui nem é Nova York.)

sábado, 28 de junho de 2008

Pessoa à luz da tarde

Na cama com Bernardo, Fernando e Vicente. Três Pessoas. Ronald Junqueiro

Onde há uma brecha, há um caminho para a luz. Olho o fim da tarde e a tarde deixa pistas sobre a cama, acaricia os livros do poeta e me dá uma lição de vida, mais uma. Que venham a noite e outro dia. Deixei o hoje, o instante revelado. Um átimo, milésimos de segundo que podem durar o tempo para mais adiante de mim. Nessa viagem, pinço um trecho de Fernando Pessoa, uma brecha para a luz. Uma colagem poética.

"Todos aqueles acasos infelizes da nossa vida, em que fomos, ou ridículos, ou reles, ou atrasados, consideremo-los, à luz da nossa serenidade íntima, como incômodos de viagem. Neste mundo, viajantes, volentes ou involentes entre nada e nada ou entre tudo e tudo, somos somente passageiros, que não devem dar demasiado vulto aos percalços do percurso, às contundências da trajetória. Consolo-me com isto, não sei se porque me consolo se porque há nisto que me console. Mas a consolação fictícia torna-se-me verdade se não penso nela". (...)
(Livro do Desassossego – vol. II, Fernando Pessoa/Bernardo Soares)

domingo, 22 de junho de 2008

Aquarela junina

A cor se destaca no breu dos quintais. Ronald Junqueiro
Volto aos quintais, um salão de festa das noites de São João. Som na caixa, forró para todos. Não teria o mesmo clima num playground.

domingo, 15 de junho de 2008

O santo sem altar

A estante virou oratório das minhas crenças. Ronald Junqueiro

O Francisco veio para o apartamento há uns dez anos. A imagem nem não tem valor no mercado das artes, não é peça cobiçada por antiquários ou colecionadores de raridades. Estava numa lojinha de artigos religiosos misturada a imagens de budas, anjinhos, mandalas e até baralho cigano. Venda de miudezas religiosas e místicas, na verdade. A intenção era embrulhar o santo para presentear a uma pessoa que ouvira dizer que todo mundo deveria ter um santo em casa. Um santo da devoção. Se não fosse este o caso, que ela escolhesse o que lhe fosse mais simpático.

Quem tem seus santos de devoção sabe o que significa pedir e orar para eles. E as imagens ganham seus cantinhos especiais, com direito a velas sete dias e sete noites e outras variações. Há quem siga à risca “tratar o santo à vela de libra” como diziam os mais velhos.

O Francisco foi ficando em casa, passou Natal e Ano Novo. A embalagem de presente dentro do armário e ele sem destino. A pessoa a quem ele se destinava havia adotado uma santa Rita, a dos impossíveis, capaz de revolucionar vidas e operar milagres de quem deles duvidasse. Eleger o santo de devoção não é tarefa fácil, por isso muita gente segue a tradição familiar. A fé no santo, com todo respeito, se parece como amor ao time de futebol, a torcida passa de pai para filhos e filhas. Ou de mãe, que também tem suas preferências, não necessariamente a seleção brasileira.

Desfiz a embalagem. E agora José? O que é isso!!! O santo tem nome. E agora Francisco? Não havia uma cantoneira para acomodá-lo. Oratório que se preze é artigo de luxo em tempos de especulação imobiliária e de déficit habitacional. Mas o Francisco ficou na dele, não estava aí para perturbar quem poderia tê-lo no coração, único território onde sempre cabe mais um.

Creio que ficou feliz quando o deixei na estante, ao lado de Franz Kafka, Gore Vidal, Fernando Pessoa, Thomas Mann, Machado de Assis, romances policiais e até alguns livros classificados como literatura erótica. Não era intenção misturar alhos com bugalhos. Mas por outro lado, era uma medida preventiva, uma vez que não haveria a obrigação de acender velas e correr o risco de provocar um grande incêndio num prédio de 14 andares, com três apartamentos por andar e um monte de morador inadimplente. O Francisco sabe com é passar por altos e baixos, até mesmo por ter renunciado à riqueza.

O compromisso assumido, a partir daquele momento, era tirar sempre a poeira da estante, fazer um revezamento de escritores e dos livros da vez. O Francisco ficou lá. E foi ficando. E passaram-se os anos. Hoje dá para bater um papinho com ele sem culpa e sem precisar de analista. Reclamar de alguns transtornos sem fazer promessas mirabolantes.

Francisco é um santo! Não lhe sou devoto, desses de segui-lo em romaria, mas não há dúvidas de que São Francisco é um grande parceiro.

(Mês de Antônio, João, Pedro e Marçal. Santos das fogueiras juninas. Maior fogueira que a Amazônia? Impossível!!! Nem é preciso anunciar os números da destruição dados por institutos oficiais e organizações não governamentais, que faiscam nas manchetes com as estatísticas de plantão. Ronald Junqueiro).

sábado, 7 de junho de 2008

Sacadas, fome zero

A fome não dá pra interromper. Ronald Junqueiro
Restaurante popular, prato feito, boca livre. O céu é o limite.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Meu reino por um quintal

Paraiso das picotas. Quintal do seu Vitor, hora da sesta. Benfica
Ronald Junqueiro
Ah, os quintais! Aos poucos são devorados pelas metrópoles. Com eles desaparecem os pomares, o cantinho da horta caseira, das ervas medicinais onde crescia aquela plantinha para acalmar o coração, o capim marinho para fazer chá do convalescente. Desaparecem os conhecimentos das avós, das tias rezadeiras que tiravam mau-olhado benzendo a criança com um pequeno galho de arruda e balbuciando orações que de tão balbuciadas soavam a um resmungo incompreensível. Sem exagero, quase um latim ensinado na pior da pior das escolas públicas.

Os quintais davam a quem os possuía todo tipo de felicidade. O sentido de posse tem duas mãos ou enchem as mãos, sabe-se lá o que está valendo, pois os quintais nos possuíam também quando plantávamos uma muda que nos devolvia botões, folhagem, ramos e as flores donas de si por tanta beleza. Era um toma lá da cá sem restrição ou preconceito.

Ali estava uma criação que certamente alegraria a arca de Noé. Um punhado de milho e lá se juntavam ao banquete os patos, galinhas ainda solteiras ou poedeira com uma ninhada de pintinhos amarelinhos que mais pareciam brinquedos vivos fugidos da vitrine de uma loja. O bater de asas, a imponência preguiçosa dos patos, os galos grandes, os garnisés, os carijós. Os perus e peruas, os autênticos, diga-se de passagem. Sem retoques, botoxes ou mau gosto. E as marrequinhas e codornas.

A elegância discreta das meninas ficava por conta das picotas, sempre em grupos, com um cinza cheio de pintinhas brancas, um blazer fashion de penas. Um desfile sem retoques, digno das galinhas d´angola.

E havia as árvores, os passarinhos, as sombras, o ventinho, todos os sons de uma orquestra que aos poucos vai saindo de cena. Os maestros logo serão uma espécie em extinção. Nós, a platéia, não saberemos mais o que aplaudir, não teremos mais o que aplaudir, não teremos mais quintais. A platéia, um dia, também estará na lista das espécies ameaçadas de extinção. Que será despejada sumariamente dessas terras como já foram o curupira, os sacis, a matita perera, a mãe do mato, o caapora e as iaras dos igarapés. Sem tetos, sem florestas e sem rios.

Vão-se os anéis e ficam os dedos e as mãos. Ou não. Essa pode ser a medida da ambição e da insensibilidade, da ganância e da riqueza, moedas efêmeras que não valerão um dólar falso para comprar o que não existe mais: vida.

Poderemos construir quintais? Ou seremos apenas fotografias analógicas e digitais, uma fita de cinema, um meio-ambiente virtual lançado num satélite de náufragos perdidos no espaço?

(Dia Mundial do Meio Ambiente. Pará, campeão das queimadas. Florestas viram carvão. O paraíso que tantos falam é ficção. Nada mais do que ficção contada em exuberantes roteiros turísticos.
Que nos valha Santa Maria de Belém do Grão Pará. Ronald Junqueiro)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Pé no varal



Pé no varal, em três tempos macunaímicos
Ronald Junqueiro

Deixo-me secar na companhia de roupas e sonhos depois de lavar suores e pesadelos.

domingo, 1 de junho de 2008

Tempo fechado. Coração quieto

O Tempo. Fim de tarde coberto de nuvens. 15 horas de chuva na cidade.
Ronald Junqueiro

Minha lua está na casa 8. O sol continua no nono setor. Eu fiquei por aqui. Meio pendurado no varal. Esperei junho chegar. 2008. Hoje choveu muito na cidade. Céu de chumbo. Lindíssimo. Volto para a estrada. Ou imagino asas. Sobrevôo-me.
Adeus Yves Saint Laurent.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Pinhole Day

Banquinho, bandeira e um vaso florido
Ronald Junqueiro

Fotografia feita com caixa de fósforo e filme colorido iso 100. A jornada mundial Pinhole Day aconteceu no último domingo de abril, no dia 29, e o resultado pode ser visto no site oficial do evento. Belém é, disparada, uma das capitais que tem participação destacada. A FotoAtiva postou 156 fotografias, cor e preto e branco.Belas imagens na galeria virtual. Em agosto tem mais, com exposição ao vivo.