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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Cultura e civilização

Mosqueiro. Tarde de chuva. Um tal de espreguiçar. Ronald Junqueiro

Inverno. Chuva. Maré cheia. Total cumplicidade com o nada a fazer. Som das ondas e da chuva que escorre pela calha e cai no pátio que dá para o imenso rio pontilhado de ilhas ao longe e navios imóveis.

Lembro uma música de Gilberto Gil. Rolam os versos na mente preguiçosa: "A cultura e a civilização, elas que se danem. Ou não"... Era voz de Gal Costa. A Tropicália passou com seu verdeamarelo exaltado, aquarela de outros tempos, hoje esmaecida e manchada pela umidade. Como qualquer espírito de época.

Mosqueiro fica a mais ou menos 70 km de Belém. A ilha não perdeu o bucolismo, mas já não tem mais a poesia de trapiche depois que construiram a ponte, ligando-a ao continente. Está sob ameaça de extinção, o verde desaparece na onda de invasões que proliferam na ilha. O olhar paradisíaco é ilusão. O futuro é a lembrança ou o fragmento.

Capturei na fotografia um átimo da realidade, a vila onde fico hospedado. Deixei a cidade num fim de semana e na sala do apartamento uma pilha de livros para limpar com uma mistura antibactericida, antiácaro, antifúngica. Dá um desânimo enooooorme, essa faxina!

Isso já dura uma semana. Pego um livro, limpo a capa, as orelhas e já fico aprisionado numa leitura ligeira, que se gruda na memória, que grita pelos personagens que estavam sufocados na estante. Capas encardidas, folhas que se vão amarelando, títulos que o tempo apaga das lombadas, histórias que atravessam os séculos - gente teimosa que saiu desse tempo que já nem nos damos conta, pois assim são os autores e suas criaturas, todos tem alma imortal ou se iludem com essa certeza que está mais em nós do que neles.

Faxina não é coisa simples como jogar poeira sob o tapete, recolher frascos vazios de shampoos e tranquilizantes para jogá-los na lixeira, restos de festa, notas de supermercado ou da farmácia...

Fui cheio de vontade para me livrar de uma pilha de jornais antigos, velhos encartes e aí deparo com uma entrevista do Daniel Cohn-Bendit, anarquista que liderou o movimento estudantil de 1968, em Paris. Ele deu uma entrevista sobre os 20 anos do movimento que se espalhou pela Europa, ao jornalista brasileiro Geneton Moraes Netto, publicada no caderno 'Idéias', do Jornal do Brasil, no dia 7 de maio de 1988. A matéria é uma viagem a um tempo que não fazia parte da minha realidade aqui na Amazônia, esse cantão esquecido lá nessas eras e ainda hoje, quando vemos que ela é apenas uma marca que está na lista das coisas em extinção.

"Ainda há causas dignas de barricada"

O título da entrevista me chama a atenção, revira meu tempo, minha memória, minhas relações. Um movimento muito íntimo e pessoal. Não sei dizer, de bate pronto, quais seriam minhas causas e palavras de ordem como se podiam ler nas pichações em Paris, em maio de 1968.

"Professores, vocês nos fazem envelhecer!"

"Corra, camarada, o velho mundo está atrás de você".

"A sociedade é uma planta carnívora!"

Mas acho que há, sim, causas dignas para erguermos barricadas. Cada um de nós pode eleger seus motivos e talvez eles se encontrem em movimentos coletivos. E aí os pares se juntam e então formam multidões capazes de alterar ordens estabelecidas por interesses escusos.

A chuva me embala, o barulhinho da maré me entorpece sem a cor ressaltada pelos dias de verão. Há um cinza pacificador. Não quero tornar meus pensamentos sérios demais. Mas sei que não vou jogar fora o encarte com a entrevista de Daniel Cohn-Bendit, hoje um deputado do parlamento europeu pelo Partido Verde da Alemanha e que tem até página na internet. Vivemos outros tempos. Preciso descobrir meus motivos para manter minhas barricadas.

"A cultura e a civilizaçao, elas que se danem... ou não... eu gosto mesmo é de comer com coentro...eu gosto mesmo é de ficar por dentro..."

Decididamente, não vou jogar Madame Bovary no conteiner de lixo, nem que Flaubert me implorasse... podem tirar o cavalinho da chuva, porque eu mesmo vou ali tomar um banho de chuva...Há coisas definitivas.