Digital clock

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Feliz Dia do Orgasmo!

Araras são fiéis até que a morte as separe. Ronald Junqueiro
A rede está embalada por notícias sobre o orgasmo. Sexo é bom. Brasileiros e Brasileiras uni-vos! Mesmo os que estão na mão ou na contramão, os f(*) e mal pagos e que nem sabem onde fica o ponto G. Mas esses,quando descobrem o endereço não reclamam de pagar bandeira dois ou a dois, a três, a quatro e menages afins para quem tem saúde de ferro, deixam o grid sem ligar para a bandeirada na corrida da ereção, no caso dos companheiros. No caso das companheiras, elas que deixem a timidez, a censura, a vergonha de lado e entrem na festa do pau, mesmo que não seja dia de padroeiro. Parece discurso trabalhista. Mas vamos e venhamos, o entusiasmo da companheirada é de fazer subir o palanque numa hora dessas. Vale a pena suar.

Os brasileiros, por mais altos e baixos em que vive o país, estão bem na foto. A situação era outra numa pesquisa nacional de 2001 patrocinada pelos laboratórios Pfizer e coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas, de São Paulo. A pesquisa recolheu informações de quase 3.000 homens e mulheres entre 18 e 70 anos, de todas as classes sociais.

Eu sempre olho com desconfiança para pesquisas, pelo autoritarismo com que elas analisam e divulgam os dados, como se fossem definitivos e que essa fonte fosse a salvação da lavoura. Ao fim e ao cabo, pouca gente sabe qual é o resultado prático. Mas pincei este trecho que é recorrente:

"A pesquisa confirma a experiência dos consultórios terapêuticos de que muitas mulheres não têm orgasmo porque seus parceiros, com receio de falhar, fazem tudo rápido demais. O medo de perder a ereção na hora H assombra 54% do universo masculino. Não, ele não é infundado. Disfunções como ejaculação precoce e impotência afetam grande parte dos brasileiros. A ejaculação precoce costuma ser um pesadelo para quase a metade dos homens entre 18 e 60 anos. A incidência é maior entre os mais jovens (e, obviamente, mais ansiosos). Se você tem dúvidas a respeito, saiba que existem medidas para determinar o problema: a ejaculação é precoce quando ocorre antes de dois minutos de sexo. Ou quando em 50% das relações ela vem antes que a parceira chegue ao clímax. É claro que se está falando, aqui, de uma mulher sem dificuldades na cama”.

Agora, cinco anos depois, a pesquisa The Face of Global Sex 2008: Sexual Confidence ("A Face Global do Sexo: Confiança Sexual"), promovida pelo fabricante de preservativos Durex, coloca o Brasil em primeiro lugar em listagens relativas à confiança numa vida sexual feliz e satisfatória e à confiança em buscar informações sobre sexo.

Esse ranking vem melhorando desde o ano passado. Quando se trata de sexo, os brasileiros só perdem para os gregos. E por margem mínima.

Os brasileiros têm uma média de 145 relações sexuais por ano, com 82% das pessoas dizendo que fazem sexo pelo menos uma vez por semana. Os gregos, 164 vezes. Empatados em terceiro lugar vêm os poloneses e russos, 143 vezes por ano. Os japoneses ficaram no fim da fila segurando o pintinho. Será que tudo isso não é lorota para inglês ver? Afinal, foram eles que criaram o Dia do Orgasmo, há cerca de oito anos. A pesquisa feita por sex shops inglesas constatou que 80% das mulheres inglesas nunca chegaram ao orgasmo. E agora?

Sexo é cultura

Rapidinhas Rapidinhas Rapidinhas Rapidinhas Rapidinhas

* Mulher que simboliza a liberdade de amar e ter orgasmo: Leila Diniz
* O orgasmo não é necessariamente uma questão de pular cercas e muros e multiplicação de parceiros. Talvez na China, este ano,onde atletas sexuais querem ganhar o pódium. Mas orgasmo é coisa a dois e monogâmica como o amor das araras. Fidelidade é escolha.
* Os macaquinhos também amam. Vamos defender a espécie? Não precisamos acreditar na nossa ancestralidade. Mas é necessário saber que o mundo é movimento e conexão.
* Feliz Dia do Orgasmo para as hienas, que dizem ser o bicho que simboliza os jornalista: come merda, trepa uma vez por ano e vive rindo.
* Ação de graça: se esbarrar com o seu chefe e ele estiver mal humorado, faça de conta que hoje é natal e deseje a ele um Feliz Dia do Orgasmo!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Falaêêêê, Pata-de-Vaca!

A indignação de um pode servir de exemplo à indignação coletiva. A atriz Arlete Salles foi à delegacia de polícia da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, registrar queixa contra um mau vizinho que cortou os galhos de uma árvore que ela plantou há dois anos em frente à sua casa.

A gente pensa que briga de vizinho, dessas briguinhas ditas corriqueiras, são coisas do século passado. Ledo engano. O certo é que a Arlete tem suas razões para defender o que cultivou.

Ela diz que além de ter plantado a árvore na calçada, acompanhou o crescimento dela, gastou dinheiro, investiu no seu crescimento e o mau vizinho nem aí. “Ele me desrespeitou, além de me atingir financeiramente porque gastei dinheiro com essa árvore", reclama a atriz. A história é cheia de detalhes, envolve queixa criminal, a famosa frase usada para a falta de diálogo “fale com meu advogado!”. Está nos jornais do dia. O atentado contra a bela “Pata-de-Vaca”, em pleno ciclo da floração, virou caso de polícia.

Proponho a indicação da grande atriz Arlete Salles para o lugar do ministro Carlos Minc, que adora holofotes, ou para secretaria de Meio Ambiente do Pará, onde ninguém consegue frear o holocausto ambiental. Ora, pois! Ponderariam os patrícios. Ora, pois, o cacete a quatro. Precisamos de gente que brigue por uma e por milhões de árvores.

(O Pará registrou o desmatamento de 499 quilômetros quadrados, em junho, contra os 262 quilômetros quadrados observados em maio, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Na Amazônia Legal, o desmatamento, em junho, foi de 870 quilômetros quadrados, 20% menor que os números registrados em maio. O Pará conseguiu se superar e superar a própria região nessa escalada de destruição da floresta. )


Para tornar o dia menos sombrio, uso o argumento de que o poeta é do povo e que sua poesia deve ser lida por todos. Peço desculpas ao poeta por seqüestrar sua poesia do livro e deixá-la aqui, assim, como uma folha solta entre milhões de folhas mortas. Precisamos da poesia para tornar o mundo melhor e florescer. Todo dia é dia de árvore, desde 1957, quando foi publicado o texto.

Fala, amendoeira
Carlos Drummond de Andrade

Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios eléctricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incômodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exactamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.

sábado, 26 de julho de 2008

Deu grampo na cabeça !

Grampo é grampo até prova em contrário. Ronald Junqueiro

Olho as manchetes dos jornais do dia com títulos garrafais sobre crimes do colarinho branco e já despertam os meus neurônios em estado de caótica anarquia. Acho que ainda são milhões de neurônios - até onde eu sei os coitados não se submeteram ao censo dos médicos neurologistas ou especialistas da área para uma contagem populacional. Essa ebulição toda segue um ritual: só acontece na leitura em jornal impresso. Se for jornal on line, os neurônios reagem lentamente, num quase estado letárgico, sob efeito hipnótico da tela de cristal líquido do computador. A notícia parece ser tão asséptica e imune aos vírus da rede!

Sentar à mesa do café da manhã com um jornal do lado é um rito de passagem. Um gole de café preto, uma mordida no pão com fibras que não tem gosto de nada, mas que disfarço passando de raspão uma geléia diet de amora - dica da nutróloga – e o olho já gruda na manchete da primeira página. Pingo leite no café. Mando ver na segunda fatia de pão. A primeira página, vitrine montada pelo editor, é como barraca de feira, tem que ser sortida. Inflação devora a cesta básica, o pãozinho não é o mesmo que o diabo amassou, mas está pela hora da morte nas metáforas domésticas que ressuscitamos a cada governo no seu ir e vir com direito ao voto que o elegeu... (Pausa)... É preciso adoçar do dia. Traço um iogurte, um suco e sempre deixo a fruta para encerrar essa travessia.

Leio as chamadas do esporte. O Paysandu, meu time foi pra Bacabal, interior do Maranhão, a 700 quilômetros de Belém, de ônibus. A gente nem imagina o tamanho do Brasil e as distâncias que nos separam. O Papão da Curuzu precisa só de um empate para assegurar sua vaga na próxima fase da série C. Mas isso é notícia que interessa mais aos torcedores alvi-azul. Para o Brasil, penso, o que interessa é a alegria do Ronaldinho e a barriga do Ronaldão.

Pooorrraaa! E há quem diga que não existe inferno astral. Eu também não creio em bruxas, mas que elas existem, ah! Elas existem!

Passo os olhos pelas coisas da política, da economia, das notícias e agenda do caderno de cultura. Mais uma pausa, agora para o mix de fibras – leite de soja, farelo e gérmen de trigo, linhaça, aveia, gergelim, frutas variadas. Preciso me vitaminar para as chamadas policiais. Infanticídios, estupros, assaltos, tiroteios, bandido morto, desta vez um tal de Alexandre, o Gordo. Corpo estendido no chão. A crônica policial é tão cheia de historinhas absurdas. Nem todos conseguem escapar.

Outro dia li uma notícia que me deixa desconfiar das tramas do destino. Um bandido do qual nem me lembro do nome, durante muito tempo conseguia se dar bem nos pequenos assaltos para arranjar uns trocados. Não era um assalto a banco ou lavagem de dinheiro, era coisa que não ia muito além de arrebatar o celular, uma bicicleta e até botijão de gás. Mas o meliante teve que encarar a ordem do dia e na tentativa de driblar a polícia foi derrubado com um tiro na perna. No boletim de ocorrência, além do nome, ficou o registrado o apelido, a alcunha. Se fosse crime virtual ele teria um nickname, com certeza, tudo seria mais chic. Pois bem, o tal Fulano de tal, era popularmente conhecido como “Fuga”. Quase um clássico.

Assim, na verdade, é a vida, e devemos cruzar os dedos para que a tragédia, em sua plenitude, não nos bata à porta e nem nos assalte nas ruas da cidade.

Para não fugir do assunto, sobram os atentados terroristas, a repercussão do barraco do Barack Obama em Berlim falando de muros e afins. A fronteira com o México permanece para a alegria dos coyotes. Hugo Chávez e Zapatero superam a briga conjugal do poder, ao olhar risonho do rei Juan Carlos. O Lulinha ex-paz e amor fica em banho-maria. Parabéns a Louise Brown pelos 30 anos, a primeira balzaquiana de proveta.

A manchetinha do dia, que parece nem nos atingir como bala perdida, mas que pesa pra muita gente sem o suporte das não tão novas tecnologias: depois da greve dos correios, cartas sobem 17,6 %.

Não recebo cartas há tanto tempo, minha língua perdeu o gosto pela cola, minha letra é um garrancho, só sei digitar e-mails... Mas essa é outra história...Termino o café e acordo pro dia nascer feliz.

No supermercado, algumas horas depois, comprei uma caixa de grampos. Avisos na embalagem: pontas arredondadas para maior segurança. Composição: aço. Produto não perecível. Validade indeterminada. Cartela com 50 grampos no. 5. Preto.

Os neurônios, em estado de excitação incontrolável, provocam tornados cerebrais. Em coro, eles pedem que eu defenda o tombamento dos grampos como patrimônio material do país. Que coisa inconcebível!

Grampo é simples objeto, mas cutuca minhas lembranças, das mulheres da família com os cabelos presos com grampos e arranjos de grampos, como se a cabeça se transformasse em uma instalação artística capaz de levar multidões às bienais. Não sei quem ficou com as fotos antigas.

E não têm o glamour dos brilhantes atracadores de cabelo, xuxas e piranhas coloridas. Mas que se lhes faça justiça. Grampo é grampo. Outra coisa é o Brasil traduzido por José Múcio, ministro das relações institucionais na frase da semana: “O meu telefone é uma rádio comunitária, de maneira que nem faço varredura mais”.

Penso que o caso não é de varredura, mas de faxina pesada para nos livar do lixo. No mais, vivemos a era da grampofobia.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Possibilidades do Pê na língua

A operação Satiagraha entra para os anais da República com todos os elementos da história da corrupção nacional e com todos os indícios de que seguirá o invisível flautista com flauta mágica conduzindo os ratos e cobaias até o precipício dos arquivos mortos dos escândalos brasileiros onde repousam anões, mensalões, agentes do propinoduto, lavadores de dinheiro, personagens top model do colarinho branco...Será? Há quem duvide?

No alfabeto, a letra Pê (com acento e ênfase) está em alta, em alfa no imaginário popular. No batidão do meu coração, de pronto vieram 69 palavras. Será o 69 cabalítico? O português nosso de cada dia é muito rico e a gente nem gasta a língua demasiadamente para livrar a língua das papas. De A a Z, muito temos a dizer. Mas pra mim hoje é o dia do Pê, possível ou proibido, porque é permitido ser sepultado em pé como Dercy.

69 pês da cabeça aos pés.

Palavra, Patuá, Pátria, Piquiá, Piriquitambóia, Peçonha, Peconha, Pupunha, PIB, Priapismo, Purpurina, Páprica, Pacas, Pencas, Pele, Pelanca, Permanganato, Parlamentares, Putamerda, Pinguço, Pilantragem, Pâncreas, Pindamonhangaba, Putaquepariu, Palavrão, Pornografia, Punhebronha, Pirarucu, Piranha, Piaba, Pindorama, Pênis, Pangaré, Pedofilia, Pedra-Pomes, Ponta de Pedras, Péralá!, Pererê, Piriri, Pernilongo, Pancadão, Palhaço, Pentelho, Porraloca, Polaróide, Pororoca, Poder, Porrinha, Pimenta, Pitanga, Patchouli, Polinização, Psiu, Procrastinar, Perdão, Prudência, Poder, Pudor, Pereba, Prostituta, Próstata, PAC (*), Protógenes, Picadura & Picagrossa, Pau na bunda & Pé no saco, Pai d´égua, Pega-não-me-larga, Prato Feito, Pato no Tucupi...

Phoda e Pharmácia póóóóóóóóódeee????

... Pê na língua do pê

ga-pa-ran-pan-to-po-que-pe-o-pro-pro-tó-pó-ge-pe-nes-pes-si-pi-fu-pu-de-pe-u-pu-de-pe-ver-per-de-pe-e-pe-a-pa-ma-pa-re-pe-lo-po, com-pom- di-pi-rei-pei-to-po-a-di-pi-plo-plo-ma-pa-de-pe-es-pes-ci-pi-a-pa-li-pi-za-pa-çã-pã-o-po.

Ah, que saudades que eu tenho da aurora da minha vida no sítio do Picapau-Amarelo! Era tão bããããããããããão!!!

(*) Programa de Aceleração do Caralho ou punheta aeróbica. Diz o povo: ‘nóis sofre mas nóis goza’.

sábado, 19 de julho de 2008

Hello Dolly!

Há luz no fim do túnel. A questão é calcular a distância. Ronald Junqueiro

Dolores Costas Bastos fez 101 anos de vida, no dia 23 de junho. É muito tempo? No Brasil, sim. Aqui se morre mais cedo porque a qualidade de vida está abaixo da linha da alegria de viver e por outros motivos que muita gente é testemunha de primeira mão – da fome, passando pela infecção hospitalar até bala perdida. Nessa perspectiva a morte é perfeito modelo democrático, vale para todos de acordo com o princípio da igualdade e da incúria, como queiram.

No aniversário, ela ganhou mousse de limão e perucas com fios egípcios, presentes do amigo e cabeleireiro Julinho do Carmo. Pelos cálculos de Dolores, ela estaria completando 103 anos, pois o registro foi feito com atraso, lá na sua longínqua Santa Maria Madalena, que nem parece estar no mapa do Brasil, que fica no interior do Rio de Janeiro, mas que agora vai entrar para o roteiro turístico como a cidade que viu nascer a mais irreverente e autêntica mulher da comédia brasileira. O prefeito declarou luto oficial de uma semana.

Comediante sem papas na língua, Dolores que se recriou como Dercy Gonçalves, não será unanimidade, mas isso é a sina dos gênios. Mais tarde, bem mais tarde, é possível que vire alentada tese acadêmica. Autobiografia já tem – ‘Dercy de cabo a rabo’. E talvez mereça maior reconhecimento das redes da televisão que a contratavam por um fio, numa censura branca que sempre tirou do ar outros artistas brasileiros da maior qualidade como, por exemplo, Leila Diniz, outra mulher inesquecível.

O Brasil deve se curvar à gente como Dercy Gonçalves, que não fez da hipocrisia ou desse arranjo intitulado “politicamente correto” uma esfarrapada justificativa para forjar o reconhecimento e a tal ansiada e burra unanimidade.

Lá se vai Dercy! Fica um vazio na irreverência necessária a um país de bem, fica o vazio do humor fundamental para representarmos nossa indignação diante dos desmandos e do desrespeito ao cidadão e fica o vazio do riso, ao qual se dobra a Ciência ao reconhecer que “rir é o melhor remédio”, sem distinção de marca ou recomendações genéricas.

Numa entrevista a Jô Soares, há dois anos, Dercy não deixou a peteca cair e cai de pau (de pau???) em políticos corruptos. Não precisou chegar aos 80 anos para dizer o que sempre quis, mas depois dos 80 ficou mais fácil. Quando Jô pergunta se ela não tinha medo de ser processada, rápida no gatilho, Dercy recorre à prerrogativa do tempo e do direito que em seu caso é indiscutível:

- Quero ver quem tem moral de vir me processar... Que venham que eu dou um ‘bucetada’!...

Cadê Mulher Melancia, Moranguinho, Boing Boing e outras frutas para dar ‘bucetadas’ em quem merece? A famosa bucetada antídoto ou veneno, dependendo do caso. Ao cabo e ao rabo, como se vê, a questão não é estética, mas de cabeça. O cérebro não está exatamente no baixo ventre e nem acompanha a boceta que insiste em ser alpinista e escalar as alturas para se instalar no cérebro. Cada qual no seu cada qual, de acordo com a geografia do corpo.

Hello Dolly! Bom seria deixar de lado a discussão bioética e aproveitar as lições do geneticista Ian Wilmult para liberar a clonagem do humor, do riso e de um exército de Dercys.

Nada de lamentos, o sábado deve estar morrendo de felicidade por ter a companhia da impagável Dolores Costas Bastos.


segunda-feira, 14 de julho de 2008

Benção, Bossa Nova

Velhas revistas e livros. Recortes e memórias. Ronald Junqueiro

Bossa Nova é uma colagem. Coisa boa do Brasil. A data do nascimento é incerta, mas o certo é que ela nasceu no berço esplêndido dos anos dourados. Mas isso ‘são outros 500’ ou 50, quem sabe? Um cantinho, um violão. E Tom & Vinícius, mestres que andaram em companhia de outros mestres, de vozes inesquecíveis como as da divina Elizeth Cardoso, Sylvia Telles, Nara Leão, Alaíde Costa, e de compositores de fino trato como Carlos Lyra, João Bôscoli, Sérgio Ricardo, Luis Bonfá, Luis Carlos Vinha, Johnny Alf, Newton Mendonça, João Donato, Baden Powell, Roberto Menescal, Francis Hime, Billy Blanco e ele, João Gilberto. Depois deles, vieram as crias dos anos ´60 e a prova irrefutável de ser o Brasil um país musical de ouvido musical. Não vamos esquecer que a cantora paraense Leila Pinheiro fez a diferença com regravações de clássicos da Bossa Nova no final dos anos ´80.

Essas não são lembranças para rodar o dia todo cantando “Chega de Saudade”. Mas revirar os guardados e os recortes da história recente é fundamental para entender o que é ser brasileiro sangue bom. Que é melhor ser alegre que ser triste, como dizia o poetinha. Isso pode ser feito com um passeio pelos songbooks produzidos por Almir Chediak, da Lumiar Editora.

Leituras recomendadas:
Chega de Saudade, Ruy Castro – Companhia das Letras
Ela é carioca, Ruy Castro – Companhia das Letras
Feliz 1958, o ano que não devia terminar, Joaquim Ferreira dos Santos – Record

...50 anos depois, vemos que muita coisa também não mudou, como a ironia, a genialidade e o desafinado narigão de Juca Chaves. Prova disso é sair por aí, assobiando e cantando mentalmente um trechozinho do presidente bossa nova, título que atravessa gerações.

Bossa nova mesmo é ser presidente

Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original.
Depois desfrutar da maravilha
De ser o presidente do Brasil...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cartão postal





Amazônia, destino: natureza morta. Ronald Junqueiro

A quem pertence a Amazônia? Com certeza não pertence aos que nela habitam. E os povos daqui vieram muito antes da invenção do Brasil, da ocupação desordenada e das invasões. Agora, um bando de senadores do colarinho branco aprova uma tal medida provisória 422 que aumenta a área da Amazônia Legal que pode ser concedida pela União para uso rural sem a necessidade de licitação. O limite salta dos 500 para 1.500 hectares. A proposta, que ainda depende da sanção presidencial, prevê que até 20% da área concedida poderá ser desmatada.
O Brasil não tem mais políticos por vocação política e nem por amor à pátria. Na hora certa, eles exibem uma xenofobia momentânea, aos sabor do marketing verdeamarelo, mas são mais vorazes que os estrangeiros e sua eterna cobiça pela região.

Quem é o inimigo do rei, afinal?

Daí vêm os ministros enrolados em cobras, como o Jobim, posar para fotografias de primeira página como se fossem Indiana Jones saído das telas de cinema, numa falsa intimidade com uma Amazônia que eles não conhecem. E falam que falam que defendem seus 21 milhões de habitantes. E os defendem do quê, exatamente? Dos grileiros, dos sojeiros, dos agropecuaristas, dos madeireiros, dos exploradores de minérios?
Daí vem o presidente, que mal conhece o Nordeste e ficou apenas na cartilha metalúrgica do abecedê paulista, com sua voz roufenha e sem brilho, a deitar discurseira sobre uma Amazônia que nem lhe passa pela cabeça geograficamente ignorante. E defende o quê, exatamente?
A floresta não é intocável e quem nela vive bem sabe disso. Viveram muito bem antes de existirem deputados, senadores e presidentes da República, essas coisas inventadas que vieram muito depois. E brigam porque? Não pela Amazônia, mas pelo poder de manipular o mundo, de se manter no poder, de vender a alma ainda que lhes custe a alma dos filhos que pariram ou ajudaram a parir.
Senadores e deputados ficam no planalto e só passam pelas metrópoles, pelas capitais e shoppings quando voltam às suas terras natais por acidente. Só ultrapassam esses limites em anos eleitorais. No mais, vivem num bembom danado, achando que a violência na selva fica por conta dos animais. Bicho, na verdade, tá na fila para entrar na lista das espécies em extinção. Moral inversa. Quem mata no campo e na floresta são os homens a mando dos homens e da sua ambição, dos governos incompetentes por natureza e por falta de ética e de espírito público.

A Amazônia parece fadada a virar savana e pasto.

domingo, 6 de julho de 2008

Vida boa, vida breve

Elas vieram de longe. A vida é prova de resistência. Ronald Junqueiro

As orquídeas ficam num canto do improvisado jardinzinho suspenso que jamais se igualará aos jardins da Babilônia. Elas florescem o ano todo, adaptadas à vida em vasos arrumados na direção do nascente. O verão é excitante, fecundador. E as arundinas se multiplicam e se derramam em flores de vida breve. Não exigem cuidados excessivos e paranóicos de jardineiro amador. É suficiente regá-las e vitaminar a terra de vez em quando. E daí a natureza toma seu rumo sem frescura. Mas as arundinas falam, também, que as conexões com o planeta são reais e não dependem de um clique virtual para ativar um mundo que pode estar oculto nesse ciclo de vida e morte, o nosso cotidiano. Se nós, como as orquídeas, encontrarmos um solo, um cantinho de terra e liberdade abrimos caminhos para outras gerações, o que é, verdadeiramente, a essência da imortalidade. Há um tempo para todos e a vida é a maior prova de resistência. Nada acaba em cada um de nós e nem em quem periga entrar para a lista de espécies em extinção.

- Tão belas essas orquídeas! Vieram de Burma, lá do outro lado, bem distante, milhas e milhas, e nem imaginaram que viveriam numa rua aqui do bairro da Pedreira, em Santa Maria de Belém do Grão Pará, Amazônia, Brasil.

(Com a pompa e circunstância da botânica, as flores da sacada são conhecidas como arundina bambosifolia, da família orquidácea e da espécie graminifolia. Isso é o que se chama, na moral, uma verdadeira árvore genealógica. As arundinas não precisam pagar terapias de regressão. Podem ter nascido nos jardins de monges budistas de Myanmar – ex-Burma ou Birmânia – esse país tão looooooooonge, no sudeste da Ásia, que nem nos damos conta de tal existência. Aliás, em 2007, a repressão às manifestações contra o regime militar, instalado no país há 46 anos, fizeram muita vítimas, entre elas os pacíficos monges. Coisa de países abençoados por Deus, como o nosso verdeamarelo pa-tro-pi. Como desgraça pouca é bobagem, um dos poucos momentos para quebrar o isolamento internacional vivido pelo país, em maio, por um ciclone, sob medida, que deixou mais de 15 mil mortos e mais de seis milhões de desabrigados. O fluxo de turistas ambientais e da rede solidária internacional deve ter aumentado pra caramba, pois Myanmar é um dos países menos visitados por turistas no continente asiático. Guardadas as proporções, o Brasil ainda é um paraíso).

Oceano de sabedoria

Tenzin Gyatso nasceu no dia 6 de julho de 1935. É o 14º Dalai Lama, título que significa “Oceano de Sabedoria”. Mas hoje não haverá espetáculos musicais e de dança como em outros anos. O governo tibetano exilado na Índia cancelou todas as celebrações dos 73 anos do líder em consideração ao sofrimento do povo do Tibete. Este ano, a cidade de Lhasa, capital tibetana, virou praça de violentos protestos que resultaram em mortes e muitas detenções.

O Tibete é administrado pela China desde 1950 e luta para ser um país autônomo que quer viver sua cultura, linguagem e religião. O povo é massacrado pela China.

Vida longa para o Dalai Lama!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Belém é logo ali!

A cidade entre as ilhas, mas aqui não é Manhattan. Ronald Junqueiro
Paraense não usa o dedo indicador para apontar onde ficam as coisas. Usa a boca, faz um bico e diz "é logo ali!".

terça-feira, 1 de julho de 2008

Céu sobre Belém

O azul dourado. Não há ó gente, ó não! céu como este. Ronald Junqueiro

Mudança do tempo. Começaram os dias mais claros e de calor intenso, quebrando a barreira dos 30º. A temperatura máxima vai subir mais. Agora é verão. Belém não consegue esconder-se aos olhos de cada um, mesmo que a invasão dos edifícios, esse empilhado urbano da construção civil de estética duvidosa, escondam aos poucos os céus que muita gente conheceu algum dia. Leva o verde da cidade e deixa a cor da grana no bolso de quem não está nem aí para um pedaço de grama. Leva até o sossego das cobras. As sucuris, uma espécie comum na região, têm que aprender a viver na tubulação do esgoto. Como não podem contar com hospedagem no Museu Goeldi e, em alguns casos, serem devolvidas ao seu habitat, onde o déficit habitacional para todas as espécies cresce assustadoramente, acabam sendo mortas pela população assustada com essa invasão dos bichos sem floresta. Fim da cadeia alimentar. Aqui não é terra para anaconda.

(Belém e seus parques foram encurralados pela especulação imobiliária, falta de fiscalização e de planejamento urbano por parte da administração municipal. O Parque do Utinga, por exemplo, onde ficam os lagos Bolonha e Água Preta, que abastecem mais de um milhão de pessoas com água, vive hoje a ameaça da expansão dos bairros e das construções imobiliárias do entorno. Belém é o paraíso das construtoras. O metro quadrado atinge facilmente o valor de três mil reais. Tudo é vendido, na planta! E aqui nem é Nova York.)