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domingo, 30 de novembro de 2008

Deus e o Diabo na terra da devastação

Imagine, mas só imagine como se fosse um cantador de cordel, contando para uma platéia que depois que a floresta se for, o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão

Mais se faça ou mais se diga, o Pará sempre entra na lista das coisas negativas ainda que positivas sejam agendas, ações e intenções na discussão em vários segmentos, das ONGs aos governos, dos empresários às instituições de ensino superior, das sociedades de direitos humanos às pastorais. É desanimador ouvir notícias que correm os quatro cantos do mundo solapando o que o Estado tem de bom e personificando o Pará como um bad boy da história.
Em Paragominas, a revolta dos carvoeiros contra a apreensão de madeira ilegal de áreas indígenas que resultou em depredação da sede do Ibama e o incêndio criminoso dos caminhões que transportavam a carga e a madeira, são um atentado contra as autoridades numa terra de direitos onde o direito precisa ser aplicado com rigor contra os crimes ambientais.
Em cena entra o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, com discurso forte e ameaçador contra madeireiras que atuam ilegalmente e que resistem a multas e autuações ao longo do tempo como se a punição fosse a coisa mais banal do mundo. Mais adiante, passado o calor do discurso e das medidas punitivas, sem dúvida nenhuma, os ilegais continuarão a agir na calada da noite e à luz do dia, devastando a floresta, vendendo madeira sem certificação que, infelizmente, é negociada em outros Estados que não assumem qualquer responsabilidade na transação porque os negócios e os lucros são mais importantes numa total falta de razão e sensibilidade. E como esperar qualquer um dos valores dos que agem ilegalmente?
Foi-se o ministro e a vida continua. Chegou a sexta-feira, 28 de novembro, e já amanhecemos com os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, colocando o Pará no pódio como campeão dos vilões da floresta, a partir das estimativas do desmatamento por corte, ou seja, remoção total da cobertura florestal, na Amazônia Legal, de agosto de 2007 a agosto de 2008. Pará e Mato Grosso os grandes atletas da destruição. A taxa de desmatamento neste período teve um aumento significativo em relação ao período anterior, atingindo 3,8% ou em números absolutos, 11.968 km2. Quase a metade desse número da devastação fica com o Pará, que desmatou neste período 5.180 km2 da floresta amazônica, segundo dados do Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal, divulgados na sexta.
Não faz mais "marolinha" esse tipo de notícia? Pior para quem assim pensa, como os mais interessados em explorar a floresta no que ela tem de sustentável e de pouca sustentabilidade de fato para quem dela vive de maneira honesta. O fato é que desovar números dos crimes ambientais não provoca reações permanentes ou se as provoca elas são pontuais, sob holofotes e flashes. Quem está se importando se os números do desmatamento são comparáveis a não sei quantos mil campos de futebol ou se já equivalem ao Estado de São Paulo ou dezenas de Vaticano? Devem pensar, ah! Isso é terror pregado pelo pessoal que faz cobertura jornalística ambiental e organizações que querem aparecer como os mocinhos de novela combatendo as vilanias da favorita.
Não é bem assim e os efeitos dessa guerra contra o verde se farão sentir, sim, pelo desmatamento e ocupação desordenada, pela savanização da região que parece a casa da mãe Joana, em linguagem figurada, mesmo.
Essa falta de prevenção, apesar da previsibilidade, torna cada dia mais vulnerável a região, a exemplo de Santa Catarina, que tem seus méritos na decomposição ambiental que vive nesses dias de catástrofes naturais e ao mesmo tempo não tão naturais quando contabilizamos os mortos, que entram na casa das centenas.
Hoje o Brasil vive uma era que vai além da ficção à La Glauber Rocha do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, mas que o endiabrado cineasta deixou em aberto para contarmos que Deus e o Diabo vivem também no meio das enchentes, catástrofes e desmatamentos. Ajuda de um lado, desgraça de outro.
Essa história do desmatamento da Amazônia nem precisa de um longa metragem para levar às telas do mundo o que estamos fazendo por nós ou contra nós. Basta um curta, de dez minutinhos no máximo, com dois cantadores de cordel contratados no Nordeste, talvez cegos talvez não, para iniciar a cantoria:
- Vou lhes contar uma história que é de verdade e de imaginação, ou então que é imaginação verdadeira: O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão.
"Que assim mal dividido esse mundo anda errado. Que a terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo!" (Glauber Rocha e Sérgio Ricardo)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Mapa da pobreza

O que o Brasil tem de diferente? Muitas coisas, inclusive as diferenças regionais que fazem o país rico para os muito ricos e pobre para os muito pobres no mesmo tempo e espaço. Basta folhear velhas lições da contradição do desenvolvimento econômico e social que cada canto do país vive. Há crise mundial, o país se assusta, mas segue em frente, sem se importar com as más línguas dos profetas do apocalipse, que sempre fazem os governos reagirem mal e proclamarem os esforços feitos para mudar isto ou aquilo. Mas fato é fato e não pode ser mudado com ações pontuais sobre grandes feitos e planos para um futuro que nunca chega, que é miragem para muita gente. Por isso, tapar o sol com a peneira permanecerá como o grande desafio a sombra absoluta. Assim como a realidade, que deixa, às vezes, vazar luz demasiada ainda que se procure o aconchego de um quarto à meia luz.
O governo federal criou mais um índice que será apresentado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e que expõe o Brasil que não queremos: o país da miséria, da pobreza danosa, violenta. A notícia não deve ser vista como gradações de escândalo pelo fato de envolver o governo, até mesmo pela razão de o próprio governo ter criado mais um instrumento para mostrar a cara do Brasil. O certo é que o novo índice é uma grande base de informação para a elaboração de políticas públicas, normalmente carentes de dados consistentes, mensuráveis e confiáveis.
Pois bem, estamos diante do novo Índice de Desenvolvimento Familiar (IDF), que será apresentado Ministério e que traça o mapa da pobreza no Brasil. Esse índice se baseia na vulnerabilidade familiar, escolaridade, acesso ao trabalho, renda, desenvolvimento infantil e condições de habitação. Essas informações têm origem no Cadastro Único ministerial que é um instrumento de coleta de dados e informações com o objetivo de identificar todas as famílias de baixa renda existentes no país. O IDF, além de poder ser calculado para cada família, foi construído de modo a ser aditivamente agregável, segundo a apresentação feita pelo Ministério do Desenvolvimento Social na internet. A partir desse novo instrumento, pode-se, com base nele, não apenas obter o grau de desenvolvimento de bairros, municípios ou países, mas também de grupos demográficos como negros, crianças, idosos ou analfabetos.
A luz que vaza pela peneira da realidade do IDF, mostra que a região Norte é a mais pobre do Brasil. É o lado distante do Brasil Central. Ainda que os programas sociais anunciem mil benefícios e beneficiados, o assistencialismo do estado não tem a força de uma ação revolucionária, quando o que o povo quer mesmo é ocupação e renda. A nota triste do caso é, realmente, a falta de alcance das políticas públicas em relação aos povos da Amazônia, onde a pobreza é escancarada. Juntando-se o assistencialismo à falta de trabalho e baixa escolaridade temos o prato feito dessa cozinha onde o Amazonas desponta como o estado com a pior situação de miséria, seguido do Pará e do Maranhão. Não escapa dessa perversa pobreza nenhum estado da região Norte.
Voltemos à distância que nos separa do poder central instalado em Brasília. Entre as capitais brasileiras, onde o Estado brasileiro está mais próximo, a situação é um pouco melhor. Não há nenhuma capital entre os 500 municípios com piores Índices de Desenvolvimento Familiar. Mas se nos distanciamos do Planalto, os índices mostram o que não queremos ver: Macapá (AP) e Porto Velho (RO) têm as piores situações, com IDF 0,48. Mas Belém (PA), Manaus (AM) e Rio Branco (AC) aparecem com 0,49 apenas. São Paulo, a cidade mais rica do País, tem um IDF de 0,55, igual ao de Teresina (PI), Natal (RN) e Aracaju (SE). Curitiba e Salvador são as melhores capitais, com 0,59 e 0,58, respectivamente.
De posse desses dados, cada cidadão deve cobrar o voto colocado, ou melhor, digitado nas urnas para escolher os candidatos eleitos para gerir os destinos de suas cidades e dos seus municípios, dos estados e do País. Quando vemos a Amazônia cantada em verso e prosa, em discursos e em palanques anacrônicos, lembrada apenas pela floresta e pelas águas na sinfonia da biodiversidade, impossível não perguntar: e os povos das florestas, e os povos das cidades fundadas no seio da floresta, não fazem parte da paisagem? A Amazônia não pode ser reduzida a cartão postal. Aqui há gente que precisa de qualidade de vida, logo a pobreza precisa ser combatida.
Não dá para tapar o sol com a peneira.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Divas negras de um Brasil brasileiro

Áurea Martins, "Até sangrar": uma voz de encantadora de serpentes
O Brasil da música popular e outras bossas e sambas de primeira grandeza pouco reconhece suas pérolas negras. Nesse colar de contas, uma ou outra escapa da fieira e se destaca em curta temporada, demora um pouco mais na mídia porque é de bom tom para gravadoras, emissoras e patrocinadores terem em seu cast personagens de um país que não assume a segregação racial ou preconceito étnico – ou de cor, como não gostam de falar os politicamente corretos -, mas que discrimina o negro, sim senhor. Há quem derrube esses muros e entre para a história e que são intocáveis, autênticas divas que, ainda assim, não são cultuadas como merecem ou são lembradas apenas em momentos especiais, normalmente regidos por interesses marqueteiros como se passa na guerra de audiência das redes de televisão. Exemplo disso são os 50 anos da Bossa Nova que reviraram o mercado musical movido mais por lucro do que por reconhecimento ao artista brasileiro desse movimento que é mais cortejado e respeitado em outros países.
Aqui, as novas gerações pouco conhecem Clementina de Jesus ou Elizeth Cardoso. O Brasil passa muito bem sem elas. Mas não se pode imaginar os Estados Unidos sem Billy Hollyday, Ella Fiztgerald ou Sarah Vaughan, apenas para citar algumas divas que continuam no mercado fonográfico mesmo depois de mortas.
Nas terras tupiniquins, Zuleide Santos da Silva só virou rainha das discotecas brasileiras porque fez um sucesso estrondoso com a música “A noite vai chegar”, do compositor Paulinho Camargo, gravada num compacto simples que vendeu um milhão de cópias e virou trilha de novela da Globo, na segunda metade dos anos 1970. Mas para chegar ao topo das paradas de sucesso deixou de ser uma simples Zuleide para virar Lady Zu, cantora de disco musik, funk, romântico e soul, o que lhe valeu o título de “Donna Summer brasileira”. Mas o sucesso passou. Lady Zu continua no show business, mas sem o mesmo brillho do revival da era da brilhantina que lançou para o mundo John Travolta e Olivia Newton John e na teledramaturgia o megasucesso “Dancin´days”.
Liliane de Carvalho, nascida na Vila de Brasilândia saiu de cena e entrou Negra Li, cantora negra que estourou este ano na música, no cinema e na televisão com a série “Antônia”. No primeiro disco, “Negra livre”, teve companhia indispensável em qualquer lançamento, no duo da música “Meus telefonemas”, com Caetano Veloso. Negra Li é a bola da vez e tomara que essa vez se multiplique por mil vezes, pois o sucesso pode ser fugaz, num país feito de musas e divas onde a participação das cantoras negras é pouca. Mais ainda nos dias de hoje, quando mercado quer mais que uma voz bonita e o negócio está mais para bundas e peitos siliconizados.
Nada a lamentar, diga-se. Mas perde quem não conhece, por exemplo, a dramática afinação de Alaíde Costa, o canto negro escancarado de Clementina de Jesus, a divina voz de Elizete Cardoso, as nuances e sutilezas de Rosa Maria que hoje encarna dona Benta do Sítio do Pica-Pau Amarelo; a saudosa Carmem Costa. Todas elas, divas pouco cultuadas no Brasil brasileiro, breve referência à aquarela de Ary Barroso, compositor que era tão exagerado na brasilildade como foi o inesquecível Cazuza muitos anos depois.
Poucas cantoras negras se mantêm por muitos anos em cartaz, mas para isso suaram muito até impor respeito e reconhecimento, como a marrom Alcione e essa instituição nacional chamada Elza Soares, uma mulher dura na queda.
O universo musical verde-amarelo perdeu-se um pouco na rotação entre as 78 rpm e a enxurrada de CDs que as gravadoras despejam no mercado e que formam montanhas com a devida parceria da pirataria tão combatida e jamais vencida. À produção das grandes gravadoras juntam-se a de pequenas e a das alternativas. É difícil separar o joio do trigo no corre-corre nosso de cada dia. Não há qualidade no ouvir música na velocidade que as urgências e prioridades do dia-a-dia nos impõem. Daí a música vem pelo celular, pelo iPod e no carro onde ficamos trancafiados em ar condicionado para nos ilharmos do estresse que nos causa o trânsito. E aí viramos autômatos, mesmo quando selecionamos o que nos dá prazer num cd-rom caprichado. Ou ouvimos em série o que os DJs colocam no rádio de acordo com o gosto deles, o que dita o mercado ou o jabá.
E sendo assim, damos uma pausa no Coldplay, banda inglesa de rock pós-britpop formada em 1998 em Londres, Inglaterra, conhecida por suas músicas introspectivas e formatada para os tops hits internacionais e abrimos passagem para Áurea Martins, que está nas lojas com um disco de rara beleza chamado “Até Sangrar”, que saiu este ano, pelo selo Biscoito Fino.
São 14 canções gravadas, entremeadas por medleys em uma voz que é voz de verdade e não um disfarce que se confunde com os arranjos ou artifícios de mesas de gravação e softwares usados por cantores que não sustentam um dó de peito. Ou seja, ouvir Áurea Martins é saber que ela canta sem efeitos especiais, é gogó e emoção.
O disco “Até Sangrar” chega às lojas cinco anos depois de um disco solo gravado de maneira independente, com a produção e a direção musical do violonista João de Aquino - de quem Áurea regravou na ocasião o clássico Viagem, a parceria de Aquino com Paulo César Pinheiro, eternizada na voz de Marisa, a Gata Mansa. O primeiro álbum de Áurea foi editado em 1972 pela RCA Victor, mas a cantora não tem uma discografia regular. Sua participação pode ser conferida em algumas coletâneas especiais, como os songbooks de Tom Jobim e Chico Buarque produzidos por Almir Chediak.
Cantora das noites cariocas, Áurea Martins tem muito chão trilhado na música e os mais de 40 anos de carreira lhe granjearam o respeito no que tem como ofício, que é cantar. E cantar como intérprete de primeira linha.

Crooner de fino trato

Áurea nasceu em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro e passou a infância embalada por música: a mãe era cantora, o pai tocava violão, um tio tocava sax, o outro clarinete e eram músicos profissionais. O avô tocava banjo. Ainda criança, Áurea participava do coral da igreja Nossa Senhora do Desterro, do bairro em que nasceu.
A música foi um caminho inevitável. Ela começou sua carreira artística na Rádio Nacional, no programa “Tribunal de Melodias”, comandado pelos atores Mário Lago e Paulo Gracindo. Áurea foi contratada pela emissora logo após a primeira apresentação e passou a integrar os programas de Paulo Gracindo, César de Alencar e Manoel Barcelos e em boa companhia. Desses programas participavam Elis Regina, Peri Ribeiro e Evinha, outra cantora negra que integrava o Trio Esperança, da época da Jovem Guarda, e que depois seguiria carreira solo até trocar o Brasil pela França.
Os anos ´60 foram marcados pelos grandes programas de auditório na televisão. Foi no programa “A Grande Chance”, de Flávio Cavalcanti, que Áurea, cantora do conjunto Os Siderais, levou o grande prêmio: a gravação de um disco e uma viagem à Portugal. O LP contou com arranjos de Luizinho Eça, acompanhamentos do Tamba Trio e a participação do escritor Paulo Mendes Campos declamando Vinicius de Moraes.
Essa época traçou seu destino nas noites cariocas, quando passou a fazer o circuito das mais famosas casas noturnas do Rio de Janeiro, dividindo shows com artistas de peso como Emílio Santiago, Elza Soares, Baden Powell, Johnny Alf, Chico Feitosa, Eumir Deodato, Cauby Peixoto, Durval Ferreira, Paulo Moura, Milton Nascimento, Marisa Gata Mansa, Dona Ivone Lara, Carmem Costa, Leci Brandão, Nelson Sargento, Ivor Lancellotti e Zezé Gonzaga.
No universo do disco, Áurea Martins pode ser considerada uma raridade. O primeiro CD gravado é de 2001, “A Voz Rouca da Crooner”, com produção de Dalva Lazaroni e direção musical de João de Aquino. No disco, ela canta músicas de Milton Nascimento, Nelson Sargento, Dona Ivone Lara, Elton Medeiros, Ivor Lancellotti, Marcio Proença, Dorival Caymmi, Cartola e Baden Powell.
Finalmente, Áurea lança o segundo disco, “Até sangrar”, feito sob medida para almas apaixonadas e nervos de aço. O disco abre com notas clássicas da bossa nova, a música “Ilusão à toa”, de Johnny Alf, compositor negro e um dos pioneiros do movimento musical que revelou ao país uma geração de músicos geniais. Mal dá tempo de respirar e num medley bem sacado a voz de Áurea traz um dos maiores sucessos de Nelson Gonçalves, “Pensando em ti”, de Herivelto Martins e David Nasser.
Uma historiazinha boa de contar sobre David Nasser: um dos jornalistas mais famosos do Brasil, ele era filho de um mascate libanês e vendia pente e giletes na Central do Brasil. Num dia em que a polícia baixou no local para tirar os ambulantes, um jornalista foi ferido e levado para o hospital. David pegou o caderno de anotações do repórter e levou-o ao O Jornal, do Diários Associados. O diretor de redação perguntou a ele se conseguiria escrever sobre o confronto na Central do Brasil. David disse que sim, pegou a máquina de escrever e descreveu tudo o que tinha visto. Ganhou emprego de repórter.
O disco de Áurea Martins é uma prato feito da melhor qualidade. “Até sangrar” passeia por um repertório onde nada há de novo e ao mesmo tempo tudo de novo. Para uma geração que viveu grandes amores nos anos ´50, tem o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues com “Não sou de reclamar”, “Há um adeus”, “Migalhas”, “Um favor” e “Volta”, prova dos nove para quem sabe o que é dor de amor e dor de cotovelo.
Mas que fique claro que o disco de Áurea Martins não é um bordão de lamentações ou uma pesada declaração das cafonices do amor. Pode-se dizer que é um disco elegante, muito bem roteirizado, onde comparecem Ary Barroso (“Ocultei”) João Donato e Lysias Ênio (“Até quem sabe”), Francis Hime e Vinícius de Moraes (“Sem mais adeus”, Herbert Viana e Paula Toller (“Nada por mim”). E mais, “Janelas abertas”, do maestro Tom Jobim, gravada há 50 anos pela divina Elizete Cardoso, no disco “Canção do amor maior”, na verdade o primeiro song book da história da música popular brasileira.
Há grandes encontros no disco, momentos em que Áurea canta com Francis Hime, na música “Sem mais adeus”; em “Valsa dueto”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, afinando-se ao vozeirão de Emílio Santiago, e numa das músicas que foi hit de Ângela Maria, resgatada por Elis Regina e que ganha nova vida com Áurea, “Vida de Bailarina”, dos compositores Chocolate e Américo Seixas - aqui um momento de arranhar os nervos quando ouvimos Áurea e Alcione, dividindo o estúdio num bom duelo de duas cantoras de vozes impecáveis e, melhor, apresentando a versão completa (1954) cantada por Ângela Maria.
A 14ª faixa do disco traz Áurea Martins numa interpretação pra ninguém botar defeito e a voz dela faz uma viagem em “Embarcação”, de Francis Hime e Chico Buarque de Holanda e na maestria do arranjo do maestro Cristóvão Bastos e a participação especial de Francis Hime.
As outras companhias de Áurea no disco “Até sangrar” estão nos bastidores e respondem por uma das excelentes produções fonográficas deste ano, que não e, pelo extremo bom gosto, disco pra tocar no rádio, mas que pode estar na discoteca de quem gosta de música de verdade. A direção artística é de Olívia Hime e sua trupe da Biscoito Fino e a concepção artística e roteiro são de Hermínio Bello de Carvalho e José Maria Camiloto Rocha.
Um breve parágrafo para Hermínio Bello de Carvalho: poeta, escritor, compositor, produtor e um dos maiores conhecedores da música popular brasileira faz uma apresentação curta e preciosa do disco de Áurea Martins. Lá, uma declaração bem ao humor de Alcione, a Marrom, quando soube do título do disco “Até sangrar”, onde teria uma faixa com Áurea Martins: “vou é giletar meus pulsos”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Oh, yes! Queremos banana

Musa de música, de teatro, de cinema, de feira e de supermercados a banana não é mais como antigamente. O produto, que era barato, virou vilão da cesta básica

Se vasculharmos com cuidado nossa memória de consumidor, em tempos de vacas magras ou de gordas vacas, nas altas e quedas das ações nas bolsas de valores, na gangorra do dólar que oscila para cima e para baixo nos tempos de hoje vamos constatar que a economia sempre regeu nossas vidas e, por mais complexo seja o economês, já ouvimos de avós, pais, tios e dos mais velhos, quando comparavam o custo de um produto em liquidação, uma frase exclamativa que foi devidamente sepultada no arquivo morto das lembranças: isso está a preço de banana!
E a comparação saía da mesa para alegria do felizardo comprador de um bem ou de um mimo. Na modista, por exemplo, para justificar os excessos ao marido, a jovem e vaidosa esposa descartava qualquer possibilidade de entrevero conjugal ao dizer que o vestido de baile da mais pura seda não custara quase nada, que a estilista lhe vendera o modelito a preço de banana.
E a metáfora econômica se aplicava a outros casos: a compra de um carro a preço de banana, o arremate da xepa no mercado, tudo a preço de banana e banana era fruta tão popular que era cantada em verso e prosa na música popular brasileira. Oh, Yes, tínhamos banana pra dar e vender. Banana, menina, tem vitamina, banana engorda e faz crescer. Tempos bons na versão do genial compositor carnavalesco Braguinha.
A vitaminada banana levada às telas do cinema americano por Carmem Miranda e para o teatro de revista pela inesquecível Leila Diniz não é mais a mesma, ou melhor, continua a mesma para o seu preço não.
A rainha do potássio foi uma das vilãs na mesa do paraense. Segundo o Dieese, o produto ficou 9,2% mais cara nas feiras e supermercados. E muito bem acompanhada por outros companheiros da cesta básica como o feijão que não é mais o feijão maravilha ao subir 7,02%, o leite, o açúcar, o tomate e a farinha de mandioca. Todos esses os produtos que fazem parte na nossa ração alimentar de cada dia contribuíram para que a cesta básica dos paraenses custasse, em outubro, R$ 195, 31, ou seja, 2,15% que roem o salário mínimo do trabalhador.
Enquanto as coberturas econômicas deitam e rolam na crise global, os bancos centrais abrem as torneiras do crédito para salvar outros bancos e segmentos industriais como o automobilístico; grupos se fortalecem nas fusões e tempos tormentosos são previstos para o novo presidente eleito pelos americanos, o paraense e os brasileiros seguem seu caminho, apesar dos pesares.
São coisas do mundo. Aqui, a notícia do dia foi aumento da cesta básica e na que seria a economia mais desenvolvida do mundo, a dos Estados Unidos, os jornais amanheceram dando um bom dia agourento para Barack Obama. O desemprego nos Estados Unidos atingiu no mês passado o seu nível mais alto desde março de 1994 e alcançou 6,5% da população economicamente ativa, de acordo com dados divulgados na sexta-feira pelo governo americano. O Departamento do Trabalho informou que 240 mil pessoas perderam seus empregos em outubro. Com certeza, Obama começa a provar a ressaca da festa da vitória. Ninguém pense que sua eleição irá resolver problemas estruturais num passe de mágica. O discurso conciliador e esperançoso do eleito ficou no desejo de melhorar o país, o que já estabelece uma boa distância entre o querer e o resolver.
No Brasil, o otimismo exagerado do presidente Lula já baixou a chama para moderada. Por certo sentiremos o efeito da tal crise mundial, mas ela não provocará quebradeiras no país como pregam alguns profetas aziagos em busca dos quinze segundos de fama. Não por isso, Lula deveria se agastar em discursos coléricos contra a oposição vazia. O presidente, se conselho serve para alguma coisa, deveria seguir tranqüilo, fazendo o que deve fazer que é governar o país sem preocupações menores altas e quedas do nível de popularidade. Até porque a preocupação do brasileiro está mais voltada para a mesa, onde deve estar o pão simbolizando o alimento.
É na mesa do brasileiro que está a crise e onde ele vai sentir o que não sabe explicar em distinto, culto e castiço economês.
Dos comuns mortais, o desejo é ter a velha banana de volta, não servir como parâmetro da pechincha, mas porque é alimento rico e sua inclusão no cardápio é recomendada por especialistas, depois que estudos constataram que o potássio na dieta alimentar, em especial para adultos e idosos, tem importante função muscular, inclusive para o coração.
(Público. 09.11.2008)