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quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cartão postal





Amazônia, destino: natureza morta. Ronald Junqueiro

A quem pertence a Amazônia? Com certeza não pertence aos que nela habitam. E os povos daqui vieram muito antes da invenção do Brasil, da ocupação desordenada e das invasões. Agora, um bando de senadores do colarinho branco aprova uma tal medida provisória 422 que aumenta a área da Amazônia Legal que pode ser concedida pela União para uso rural sem a necessidade de licitação. O limite salta dos 500 para 1.500 hectares. A proposta, que ainda depende da sanção presidencial, prevê que até 20% da área concedida poderá ser desmatada.
O Brasil não tem mais políticos por vocação política e nem por amor à pátria. Na hora certa, eles exibem uma xenofobia momentânea, aos sabor do marketing verdeamarelo, mas são mais vorazes que os estrangeiros e sua eterna cobiça pela região.

Quem é o inimigo do rei, afinal?

Daí vêm os ministros enrolados em cobras, como o Jobim, posar para fotografias de primeira página como se fossem Indiana Jones saído das telas de cinema, numa falsa intimidade com uma Amazônia que eles não conhecem. E falam que falam que defendem seus 21 milhões de habitantes. E os defendem do quê, exatamente? Dos grileiros, dos sojeiros, dos agropecuaristas, dos madeireiros, dos exploradores de minérios?
Daí vem o presidente, que mal conhece o Nordeste e ficou apenas na cartilha metalúrgica do abecedê paulista, com sua voz roufenha e sem brilho, a deitar discurseira sobre uma Amazônia que nem lhe passa pela cabeça geograficamente ignorante. E defende o quê, exatamente?
A floresta não é intocável e quem nela vive bem sabe disso. Viveram muito bem antes de existirem deputados, senadores e presidentes da República, essas coisas inventadas que vieram muito depois. E brigam porque? Não pela Amazônia, mas pelo poder de manipular o mundo, de se manter no poder, de vender a alma ainda que lhes custe a alma dos filhos que pariram ou ajudaram a parir.
Senadores e deputados ficam no planalto e só passam pelas metrópoles, pelas capitais e shoppings quando voltam às suas terras natais por acidente. Só ultrapassam esses limites em anos eleitorais. No mais, vivem num bembom danado, achando que a violência na selva fica por conta dos animais. Bicho, na verdade, tá na fila para entrar na lista das espécies em extinção. Moral inversa. Quem mata no campo e na floresta são os homens a mando dos homens e da sua ambição, dos governos incompetentes por natureza e por falta de ética e de espírito público.

A Amazônia parece fadada a virar savana e pasto.

3 comentários:

Ana Luiza disse...

Demasiadamente lúcido... Saudade de quando éramos inocentes... Beijo.

Tânia Marchezin disse...

Que "país" é esse...

Pitanga disse...

E infelizmente a culpa não é somente dos Senadores e Deputados...

Ótimo blog! Parabéns!

Pitanga (diHITT)