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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Muitos planos e pouca saúde

“Feiras no Largo”, em Évora (Portugal). Brechó da praça

O tempo não pára e é igual para todos na sua inevitabilidade. Mas para a maioria, sem rimas poéticas, é de uma crueldade que se traduz em números, valores e qualidadade de vida

Envelhecer no Brasil não é para qualquer um. Ou a pessoa nasceu em berço esplêndido ou foi favorecido pela sorte e articulações aqui e acolá para superar a pobreza como alguns jogadores de futebol, artistas nem sempre talentosos, mas que com um bom marketing conquistam o mercado – na verdade são mais empreendedores do que artistas – e, como nos mostra a história do País, investir na carreira política, que hoje não é mais apenas uma questão de vocação, mas uma saída para dias melhores que virão.
Envelhecer com dignidade no Brasil é comer o pão que o diabo amassou, perder a qualidade de vida que se foi junto com a tranqüilidade de uma aposentadoria decente, de saúde garantida, casa, comida e paz de espírito.
Mas paga-se um preço muito alto para envelhecer no Brasil, como é o caso dos planos de saúde. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) analisou planos de referência das 16 principais operadoras de planos de saúde do País e constatou uma série de irregularidades e de práticas discriminatórias que, segundo a entidade, tornam inviável o acesso e a permanência de idosos nos serviços de saúde suplementar. O reajuste por faixa etária pode chegar a 104% quando o consumidor atinge os 59 anos, índice muito superior ao verificado nas demais faixas etárias.
A advogada do Idec, entrevistadas pela televisão e jornais resume essa ópera com uma declaração contundente e dolorosa: “As regras existentes hoje não são suficientes para impedir que o idoso seja expulso do plano de saúde após contribuir por muitos anos, pois fica muito caro manter o plano”.
Quem se recorda dessa frase bordada pelo otimismo presidencial?
“Eu acho que não está longe da gente a atingir a perfeição no tratamento de saúde neste país”.
A declaração foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 19 de Abril do ano passado, em Porto Alegre, ao inaugurar as novas instalações da emergência do Hospital Nossa Senhora da Conceição. Mais de um ano atrás.
Se a saúde pública chegou ao nível do atendimento público de países de primeiro mundo, é coisa a conferir. Mas num País como nosso, onde o plano de saúde cria a ilusão de que estamos bem mais seguros, diante da pesquisa divulgada pelo Idec, resta-nos a frustração e a tristeza que, convenhamos, nem o mais alto índice de aprovação presidencial, já alardeado como recorde histórico, consegue desfazer. Que o governo chegue às nuvens e que nosso presidente vocifere contra os pessimistas pelo direito à liberdade de expressão que lhe cabe, mas que saiba que envelhecer neste país é um desafio superado por poucos.
Segundo a pesquisa, um idoso cuja renda fosse de um salário mínimo gastaria 80% desse valor, em média, apenas para manter o benefício. Além do “agressivo preço cobrado”, a entidade aponta problemas como carências excessivas, planos que de forma ilegal não abrangem assistência ao idoso e até mesmo desestímulo a que os corretores vendam planos a maiores de 59 anos. E pensar que a população está envelhecendo previsivelmente no País é projetar o drama a ser enfrentado por quem está à beira dos 60 e sem uma aposentadoria digna. Na verdade, uma aposentadoria que nunca será bem vinda para a maioria dos brasileiros, pois significa jogar mais um no bolsão da pobreza. Isso não é pessimismo. Ao contrário, é de um realismo ponteagudo, desses que não conseguem a disfarçar a dor de quem é cutucado por uma adaga.
Ontem, a declaração de uma senhora aposentada num telejornal traduz exatamente drama que é envelhecer no Brasil. Com o pagamento do plano de saúde dessa aposentada de salário mínimo, o que lhe sobra na hora de sacar o benefício (podemos considerar a aposentadoria um benefício?) são mais ou menos R$ 190,00 reais. E ela perguntava: “Dá pra viver com R$ 190,00?”. Não fossem a ajuda dos filhos e de pessoas caridosas que lhes conhecem as dificuldades de aposentada, a vida dessa senhora seria mais uma entre milhões de miseráveis vidas que nem conseguem ter acesso a um plano de saúde privado.
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) permita reajustes por mudança de idade do segurado, esse índice não pode ser superior a 500% entre a 1ª faixa etária (0 a 18 anos) e a 10ª e última faixa (59 anos ou mais). A ANS determina ainda que a variação acumulada entre a 7ª (44 a 48 anos) e a 10ª faixas não seja superior à aplicada entre a 1ª e a 7ª. Mas a pesquisa verificou que algumas empresas desrespeitam essas regras da ANS, aplicando reajustes superiores a 500% e concentrando os maiores índices nas faixas etárias mais avançadas.
Nunca na história deste Pais, envelhecer foi tão difícil quanto é hoje. Para todos nós, o caminho é irreversível. Para muitos poucos, a irreversibilidade do tempo pode ser amenizada por suporte material e financeiro. Mas envelhecer é negócio para muito, os que levam vantagem por cada ruga que pode ser transformada em cifrão. E nessa hora, sifu o cidadão.

PS. Ah, senhor Presidente da República, que pavor eu sinto quando penso que um dia vou chegar aos 59 anos! Ah, senhor presidente, com certeza eu e outros milhões de brasileiros morremos de inveja da sua trajetória! Quem diz que não tem inveja é um grandissíssimo mentiroso. Porra, estudei, ralei e ralei, apostei no futuro achando que estava no caminho certo, esquentei banco de universidade e de que me adiantou ter ralado? Como é cruel ralar assim! Daria para compor um bolero.

E o que o senhor tem a ver com isso? Sifu ou mifu?

2 comentários:

Monika Baumann disse...

Vim desejar um Feliz Natal pra ti e os seus e um 2.009 cheio de muita paz, sucesso, saúde e realizações.
Bjuuu!

LETÍCIA CASTRO disse...

É, Rô, acertou no fígado, não é todo mundo que é golpista, né? Alguns de nós ainda acreditamos nos meios dignos pra se chegar lá, mas é aí?
Amigo, só por hoje então, recosta a tua cabeça no espírito da data e curta!
Vim te desejar um Natal maravilhoso, com tudo de bom que a data proporciona, viu?
Beijocas carinhosas!