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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Divas negras de um Brasil brasileiro

Áurea Martins, "Até sangrar": uma voz de encantadora de serpentes
O Brasil da música popular e outras bossas e sambas de primeira grandeza pouco reconhece suas pérolas negras. Nesse colar de contas, uma ou outra escapa da fieira e se destaca em curta temporada, demora um pouco mais na mídia porque é de bom tom para gravadoras, emissoras e patrocinadores terem em seu cast personagens de um país que não assume a segregação racial ou preconceito étnico – ou de cor, como não gostam de falar os politicamente corretos -, mas que discrimina o negro, sim senhor. Há quem derrube esses muros e entre para a história e que são intocáveis, autênticas divas que, ainda assim, não são cultuadas como merecem ou são lembradas apenas em momentos especiais, normalmente regidos por interesses marqueteiros como se passa na guerra de audiência das redes de televisão. Exemplo disso são os 50 anos da Bossa Nova que reviraram o mercado musical movido mais por lucro do que por reconhecimento ao artista brasileiro desse movimento que é mais cortejado e respeitado em outros países.
Aqui, as novas gerações pouco conhecem Clementina de Jesus ou Elizeth Cardoso. O Brasil passa muito bem sem elas. Mas não se pode imaginar os Estados Unidos sem Billy Hollyday, Ella Fiztgerald ou Sarah Vaughan, apenas para citar algumas divas que continuam no mercado fonográfico mesmo depois de mortas.
Nas terras tupiniquins, Zuleide Santos da Silva só virou rainha das discotecas brasileiras porque fez um sucesso estrondoso com a música “A noite vai chegar”, do compositor Paulinho Camargo, gravada num compacto simples que vendeu um milhão de cópias e virou trilha de novela da Globo, na segunda metade dos anos 1970. Mas para chegar ao topo das paradas de sucesso deixou de ser uma simples Zuleide para virar Lady Zu, cantora de disco musik, funk, romântico e soul, o que lhe valeu o título de “Donna Summer brasileira”. Mas o sucesso passou. Lady Zu continua no show business, mas sem o mesmo brillho do revival da era da brilhantina que lançou para o mundo John Travolta e Olivia Newton John e na teledramaturgia o megasucesso “Dancin´days”.
Liliane de Carvalho, nascida na Vila de Brasilândia saiu de cena e entrou Negra Li, cantora negra que estourou este ano na música, no cinema e na televisão com a série “Antônia”. No primeiro disco, “Negra livre”, teve companhia indispensável em qualquer lançamento, no duo da música “Meus telefonemas”, com Caetano Veloso. Negra Li é a bola da vez e tomara que essa vez se multiplique por mil vezes, pois o sucesso pode ser fugaz, num país feito de musas e divas onde a participação das cantoras negras é pouca. Mais ainda nos dias de hoje, quando mercado quer mais que uma voz bonita e o negócio está mais para bundas e peitos siliconizados.
Nada a lamentar, diga-se. Mas perde quem não conhece, por exemplo, a dramática afinação de Alaíde Costa, o canto negro escancarado de Clementina de Jesus, a divina voz de Elizete Cardoso, as nuances e sutilezas de Rosa Maria que hoje encarna dona Benta do Sítio do Pica-Pau Amarelo; a saudosa Carmem Costa. Todas elas, divas pouco cultuadas no Brasil brasileiro, breve referência à aquarela de Ary Barroso, compositor que era tão exagerado na brasilildade como foi o inesquecível Cazuza muitos anos depois.
Poucas cantoras negras se mantêm por muitos anos em cartaz, mas para isso suaram muito até impor respeito e reconhecimento, como a marrom Alcione e essa instituição nacional chamada Elza Soares, uma mulher dura na queda.
O universo musical verde-amarelo perdeu-se um pouco na rotação entre as 78 rpm e a enxurrada de CDs que as gravadoras despejam no mercado e que formam montanhas com a devida parceria da pirataria tão combatida e jamais vencida. À produção das grandes gravadoras juntam-se a de pequenas e a das alternativas. É difícil separar o joio do trigo no corre-corre nosso de cada dia. Não há qualidade no ouvir música na velocidade que as urgências e prioridades do dia-a-dia nos impõem. Daí a música vem pelo celular, pelo iPod e no carro onde ficamos trancafiados em ar condicionado para nos ilharmos do estresse que nos causa o trânsito. E aí viramos autômatos, mesmo quando selecionamos o que nos dá prazer num cd-rom caprichado. Ou ouvimos em série o que os DJs colocam no rádio de acordo com o gosto deles, o que dita o mercado ou o jabá.
E sendo assim, damos uma pausa no Coldplay, banda inglesa de rock pós-britpop formada em 1998 em Londres, Inglaterra, conhecida por suas músicas introspectivas e formatada para os tops hits internacionais e abrimos passagem para Áurea Martins, que está nas lojas com um disco de rara beleza chamado “Até Sangrar”, que saiu este ano, pelo selo Biscoito Fino.
São 14 canções gravadas, entremeadas por medleys em uma voz que é voz de verdade e não um disfarce que se confunde com os arranjos ou artifícios de mesas de gravação e softwares usados por cantores que não sustentam um dó de peito. Ou seja, ouvir Áurea Martins é saber que ela canta sem efeitos especiais, é gogó e emoção.
O disco “Até Sangrar” chega às lojas cinco anos depois de um disco solo gravado de maneira independente, com a produção e a direção musical do violonista João de Aquino - de quem Áurea regravou na ocasião o clássico Viagem, a parceria de Aquino com Paulo César Pinheiro, eternizada na voz de Marisa, a Gata Mansa. O primeiro álbum de Áurea foi editado em 1972 pela RCA Victor, mas a cantora não tem uma discografia regular. Sua participação pode ser conferida em algumas coletâneas especiais, como os songbooks de Tom Jobim e Chico Buarque produzidos por Almir Chediak.
Cantora das noites cariocas, Áurea Martins tem muito chão trilhado na música e os mais de 40 anos de carreira lhe granjearam o respeito no que tem como ofício, que é cantar. E cantar como intérprete de primeira linha.

Crooner de fino trato

Áurea nasceu em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro e passou a infância embalada por música: a mãe era cantora, o pai tocava violão, um tio tocava sax, o outro clarinete e eram músicos profissionais. O avô tocava banjo. Ainda criança, Áurea participava do coral da igreja Nossa Senhora do Desterro, do bairro em que nasceu.
A música foi um caminho inevitável. Ela começou sua carreira artística na Rádio Nacional, no programa “Tribunal de Melodias”, comandado pelos atores Mário Lago e Paulo Gracindo. Áurea foi contratada pela emissora logo após a primeira apresentação e passou a integrar os programas de Paulo Gracindo, César de Alencar e Manoel Barcelos e em boa companhia. Desses programas participavam Elis Regina, Peri Ribeiro e Evinha, outra cantora negra que integrava o Trio Esperança, da época da Jovem Guarda, e que depois seguiria carreira solo até trocar o Brasil pela França.
Os anos ´60 foram marcados pelos grandes programas de auditório na televisão. Foi no programa “A Grande Chance”, de Flávio Cavalcanti, que Áurea, cantora do conjunto Os Siderais, levou o grande prêmio: a gravação de um disco e uma viagem à Portugal. O LP contou com arranjos de Luizinho Eça, acompanhamentos do Tamba Trio e a participação do escritor Paulo Mendes Campos declamando Vinicius de Moraes.
Essa época traçou seu destino nas noites cariocas, quando passou a fazer o circuito das mais famosas casas noturnas do Rio de Janeiro, dividindo shows com artistas de peso como Emílio Santiago, Elza Soares, Baden Powell, Johnny Alf, Chico Feitosa, Eumir Deodato, Cauby Peixoto, Durval Ferreira, Paulo Moura, Milton Nascimento, Marisa Gata Mansa, Dona Ivone Lara, Carmem Costa, Leci Brandão, Nelson Sargento, Ivor Lancellotti e Zezé Gonzaga.
No universo do disco, Áurea Martins pode ser considerada uma raridade. O primeiro CD gravado é de 2001, “A Voz Rouca da Crooner”, com produção de Dalva Lazaroni e direção musical de João de Aquino. No disco, ela canta músicas de Milton Nascimento, Nelson Sargento, Dona Ivone Lara, Elton Medeiros, Ivor Lancellotti, Marcio Proença, Dorival Caymmi, Cartola e Baden Powell.
Finalmente, Áurea lança o segundo disco, “Até sangrar”, feito sob medida para almas apaixonadas e nervos de aço. O disco abre com notas clássicas da bossa nova, a música “Ilusão à toa”, de Johnny Alf, compositor negro e um dos pioneiros do movimento musical que revelou ao país uma geração de músicos geniais. Mal dá tempo de respirar e num medley bem sacado a voz de Áurea traz um dos maiores sucessos de Nelson Gonçalves, “Pensando em ti”, de Herivelto Martins e David Nasser.
Uma historiazinha boa de contar sobre David Nasser: um dos jornalistas mais famosos do Brasil, ele era filho de um mascate libanês e vendia pente e giletes na Central do Brasil. Num dia em que a polícia baixou no local para tirar os ambulantes, um jornalista foi ferido e levado para o hospital. David pegou o caderno de anotações do repórter e levou-o ao O Jornal, do Diários Associados. O diretor de redação perguntou a ele se conseguiria escrever sobre o confronto na Central do Brasil. David disse que sim, pegou a máquina de escrever e descreveu tudo o que tinha visto. Ganhou emprego de repórter.
O disco de Áurea Martins é uma prato feito da melhor qualidade. “Até sangrar” passeia por um repertório onde nada há de novo e ao mesmo tempo tudo de novo. Para uma geração que viveu grandes amores nos anos ´50, tem o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues com “Não sou de reclamar”, “Há um adeus”, “Migalhas”, “Um favor” e “Volta”, prova dos nove para quem sabe o que é dor de amor e dor de cotovelo.
Mas que fique claro que o disco de Áurea Martins não é um bordão de lamentações ou uma pesada declaração das cafonices do amor. Pode-se dizer que é um disco elegante, muito bem roteirizado, onde comparecem Ary Barroso (“Ocultei”) João Donato e Lysias Ênio (“Até quem sabe”), Francis Hime e Vinícius de Moraes (“Sem mais adeus”, Herbert Viana e Paula Toller (“Nada por mim”). E mais, “Janelas abertas”, do maestro Tom Jobim, gravada há 50 anos pela divina Elizete Cardoso, no disco “Canção do amor maior”, na verdade o primeiro song book da história da música popular brasileira.
Há grandes encontros no disco, momentos em que Áurea canta com Francis Hime, na música “Sem mais adeus”; em “Valsa dueto”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, afinando-se ao vozeirão de Emílio Santiago, e numa das músicas que foi hit de Ângela Maria, resgatada por Elis Regina e que ganha nova vida com Áurea, “Vida de Bailarina”, dos compositores Chocolate e Américo Seixas - aqui um momento de arranhar os nervos quando ouvimos Áurea e Alcione, dividindo o estúdio num bom duelo de duas cantoras de vozes impecáveis e, melhor, apresentando a versão completa (1954) cantada por Ângela Maria.
A 14ª faixa do disco traz Áurea Martins numa interpretação pra ninguém botar defeito e a voz dela faz uma viagem em “Embarcação”, de Francis Hime e Chico Buarque de Holanda e na maestria do arranjo do maestro Cristóvão Bastos e a participação especial de Francis Hime.
As outras companhias de Áurea no disco “Até sangrar” estão nos bastidores e respondem por uma das excelentes produções fonográficas deste ano, que não e, pelo extremo bom gosto, disco pra tocar no rádio, mas que pode estar na discoteca de quem gosta de música de verdade. A direção artística é de Olívia Hime e sua trupe da Biscoito Fino e a concepção artística e roteiro são de Hermínio Bello de Carvalho e José Maria Camiloto Rocha.
Um breve parágrafo para Hermínio Bello de Carvalho: poeta, escritor, compositor, produtor e um dos maiores conhecedores da música popular brasileira faz uma apresentação curta e preciosa do disco de Áurea Martins. Lá, uma declaração bem ao humor de Alcione, a Marrom, quando soube do título do disco “Até sangrar”, onde teria uma faixa com Áurea Martins: “vou é giletar meus pulsos”.

2 comentários:

Ana Luiza disse...

Você me deixou com água na boca! Vou sair correndo pra comprar e, se não encontrar, aí sim gileto meus pulsos! Beijo.

THULLA MELO disse...

FANTASTICA ESSA PUBLICAÇÃO DE 2008,MAS TÃO ATUAL,ATUAL PQE NADA MUDOU NO CENÁRIO MUSICAL,INFELISMENTE.
PRA NÓS NEGRAS QUE ATUAMOS COMO CANTORAS SABER QUE TEMOS QUE CONTINUAR COM ESSA LUTA ÁRDUA,E AO MESMO TEMPO TÃO PRAZEROSA QUE É CANTAR,TEMOS QUE PERSISTIR E MESMO COM TUDO DEIXAR A NOSSA MARCA!
FAZER SEM ESPERAR O RECONHECIMENTO,INFELISMENTE ESTAMOS NO BRASIL!!!! THULLA MELO